Para Ler Escritoras

#10 • Tudo Pode Ser Roubado, de Giovana Madalosso

E

stou deitada na cama de um cara chamado Beto ou Neto, não sei direito. Sei que ele tem uma mancha que cobre boa parte da barriga porque isso estou vendo, uma mancha com uma forma que parece pedir para ser decifrada, como os rostos ou animais que se desenham nas nuvens. Penso em tocar a barriga dele e dizer: parece um homem de nariz grande ou um tamanduá ou o mapa de um país que não conheço, mas falar qualquer coisa agora quebraria a aura silenciosa de pós-coito que paira entre nós. É uma questão de respeito, como numa igreja. Ninguém fica falando durante a comunhão alheia. Digo comunhão porque a dopamina ou serotonina ou seja lá o que o orgasmo libera tem o poder de provocar um alinhamento raro entre nosso corpo e nossa cabeça. Mas para a minha sorte – afinal, estou com certa pressa, estou aqui a trabalho – essa sensação maravilhosa que ele está sentindo não vai longe. Daqui a pouco, esse sorriso que o Beto ou Neto tem no rosto vai se desfazer e ele vai voltar a seus pensamentos, vai voltar a ser aquele bichinho angustiado que todos somos, mexendo no celular ou indo ao banheiro ou pegando um cigarro ou fazendo qualquer outra coisa para escapar um pouco dele mesmo.

Não falei? Ele acaba de se levantar. Vou dar uma mijada, me diz. As nádegas peludas olhando para mim. Torço para que ele seja do tipo educado. Do tipo que fecha a porta, que levanta e abaixa a tampa, que lava as mãos, porque isso me dá um tempo extra, e tempo extra é sempre bom. Mas logo vejo que ele é um australopiteco, como quase todos os outros, porque sequer toca no trinco, sequer faz da porta um biombo entreaberto. Por um segundo, me arrependo de não ter saído com uma mulher, sempre tão mais convenientes com seus longos rituais de higiene e beleza, sentando na privada, dobrando o papel, se olhando no espelho, às vezes até passando batom. Mas não é todo dia que dá para sair com uma Maria ou uma Renata ou uma Carolina, e tento ver o lado positivo das coisas: com a porta escancarada pelo menos consigo escutar o que o Beto ou Neto está fazendo lá dentro. Agora, por exemplo, ele está soltando as primeiras gotas. Jato forte, tendência a ser longo, é por isso que adoro os caras que bebem cerveja. Mas, ainda que eu calcule que essa mijada vai longe, não deixa de ser apenas uma mijada, portanto sei que não tenho tempo a perder, que não posso me aventurar pelo closet como gostaria. Ignorando a mesa de cabeceira, que geralmente não tem nada que preste, só livros e remédios e camisinhas e porcarias do gênero, parto para cima da cômoda e abro a primeira gaveta. Fico satisfeita com o que encontro, com os diversos pares bem alinhados entre si, quase uma coleção. Pego o que está mais ao fundo, aquele que deve ser menos usado, do qual vai demorar mais a sentir falta, e confiro a haste, a marca em relevo, me certificando de que é coisa fina. Depois tento encontrar o case, com o case sempre vale um pouco mais, mas então escuto o jato enfraquecendo, as gotas rareando e fecho logo a gaveta e meto logo o negócio dentro da bolsa, a tempo de ainda ouvir a descarga, o arauto do crime anunciando com sua mensagem hídrica que está na hora de encerrar as operações.

Quando o Beto ou Neto sai do banheiro, me encontra na beira da cama, com as pernas cruzadas, enrolando a pontinha dos cabelos com o dedo. Ele sorri para mim. Coitado, ele sorri para mim. Depois, acende um cigarro e, acredito que por educação, me pergunta: tá a fim de tomar alguma coisa, gata? Não, digo pra ele, tô morrendo de sono. E já com a bolsa na mão, me levantando, catando minhas roupas, completo: melhor eu ir pra minha casa, melhor dormir lá mesmo. Mas me liga qualquer hora, viu? Claro que não deixo o telefone.

para-ler-escritorasSobre a Autora

Giovana Madalosso nasceu em Curitiba, em 1975, e vive em São Paulo. É formada em Jornalismo pela UFPR. Durante quinze anos, trabalhou como redatora publicitária. Hoje escreve também roteiros para TV.

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Comments (2)

    1. Gabriela Ribeiro:

      Ana, é que esse é um trecho de romance (o primeiro capítulo do livro, para ser mais específica). Talvez no todo faça mais sentido para você 🙂

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