Para Ler Escritoras

#23 • Mulher, um poema de Thalita Coelho

a solidão necessária para se aproximar do outro, não, da outra. para se enxergar e pôr no papel, melhor, na folha, para que uma mulher passe os olhos, digo, a visão, sobre todo o meu corpo, perdão, minha matéria e substância, e possa ler nas entrelinhas e linhas de expressão, nas marcas, não de roupa, mas de tempo, droga, da idade, todas elas inscritas na minha pele, um discurso, não, palestra, sobre o ser nós e o ser eu, sobre a coletividade impressa na indivídua; sujeitas subjetivas não subordinadas.

todo o meu escrito é mulher, ou melhor, toda a minha escrita é mulher, pra mulher, de mulher, em mulher. mesmo que não se saiba o que é. essas letras são mulheres, a tinta impressa será mulher, o toque no teclado foi mulher, os olhos que leem são mulheres.

tudo que sai de mim se esvai pra preencher nós. mulher. minha dor é mulher. minha amor é mulher. minha pensar é mulher. minha escrever, também mulher. minha verbo é verba que sustenta o ser mulher, a poesia nada poética dessa linharada escrita por uma mulher que não sabe fazer poesia mas sente a poesia na carne. e sabe quem é, e é mulher, visível, saída da terra enterrada, saída da casa trancada, saída da sombra.
e se perguntarem se importa ser mulher eu digo

sou

e se perguntarem o que é mulher eu respondo

sou

e se mandarem calar a mulher eu grito

sou

e saio mulher,

de mãos dadas com outra.

para-ler-escritoras-thalitaSobre a Autora

Thalita Coelho é escritora lésbica e doutoranda em Teoria Literária na linha de pesquisa Crítica feminista e Estudos de gênero pela UFSC. É autora do livro de poesias Terra Molhada (Editora Patuá, 2018). Publicou seu primeiro poema aos 10 anos.  

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Terra Molhada (Editora Patuá, 2018)

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