Para Ler Escritoras

#27 • Primeiro capítulo de Machamba, de Gisele Mirabai

O Tempo Grande e o Tempo Pequeno

A mangueira está lá até hoje. Nela pendurada uma fita vermelha. Tudo começou sem muita explicação. Não houve um motivo específico para o Elo Perdido acontecer. Houve bem antes disso um negro correndo atrás de uma gazela em Angola, enquanto um branco se escondia atrás de uma pistola de cano fininho. Houve o momento em que os olhos do homem branco fitaram os olhos do homem negro e ele soube, fincado lá no fundo de si, que o que fazia era o não certo. Mesmo assim o tiro ecoou nas savanas, os reinos africanos foram desfeitos, as mulheres com a cria arrancada do peito e os reis trazidos como escravos em navios, para bem longe da África. A gazela viveu por mais alguns anos enquanto os meninos cresceram em senzalas, do outro lado do mar, fazendo somente o que mandavam ser feito. Nos tempos em que só se amava quem podia ser amado. Porque antes mesmo disso houve a sede de poder, que nasceu da gosma do estômago de um homem muito antigo. Tão antigo que é fora do próprio tempo.

Como o Dia do Antes.

O Dia do Antes aconteceu um infinito antes do Dia do Depois. No Dia do Antes havia a fazenda e a piscina escura do rio com o sapo amarelo, havia os girinos agitados na beira d’água e as pancadas das grandes chuvas. Havia os porcos e o gramadão lá embaixo para os animais trotarem para as visitas, havia os pés de laranja, a cerâmica portuguesa, as gengivas dos cavalos que apareciam de repente com nacos de feno nos dentes. Havia João e Joana, e havia Daniel.
Naquela época, o Cristo pregado na parede não fazia barulho. Estava de olhos baixos em meio aos quadros das africanas de turbantes coloridos, garimpados na feira hippie. Em silêncio. O Cristo parecia que não observava.

Mas as coisas iam acontecendo.

Ah, antes de mais nada: no Dia do Antes havia a maçaneta fechada e também uma menina batendo na porta do banheiro de azulejo laranja, gritando: eu sou virgem, pai!

Naquela manhã, Machamba pediu dinheiro para comprar os brigadeiros no Doce do Doceiro. Era véspera do seu aniversário. O pai estava sentado na mesa com a calculadora e balançou a mão para não atrapalhar a conta. Ela então catou as moedas na mesinha do abajur. Fazia calor. O pai tinha a camisa suada e usava óculos. Ele trabalhava. Ela acha que saiu correndo para comprar os doces. Acha. Sem chinelos, pois talvez ainda fosse criança. Mas não sabe ao certo. Naquela tarde, ela amarrou uma fita no galho da mangueira. Os freis que se mudaram para a fazenda depois não tiraram a fita. Ela ficou pelos anos. Vermelha. Marcando o meridiano que separa o Dia do Antes do Dia do Depois. A linha de Greenwich que divide o tempo em dois:

O Tempo Grande e o Tempo Pequeno.

A mangueira ainda mora no Tempo Grande, onde moram a terra e a chuva, e também a lua, as nuvens, os anéis de Saturno, os coqueiros balançando numa praia do Pacífico. No Tempo Pequeno mora o Dia do Depois, e a correria, as grandes cidades, os buracos na estrada e as ambulâncias que não chegam, moram as pessoas que morrem de repente e os amores que partem. Também os apartamentos com sofás que não são nossos e janelas não nossas com vistas que não nos pertencem. Nunca explicaram para ela que as coisas podem mudar para sempre. Que os pais deixam de existir. E as mães vão embora para nunca mais voltar. Que os galhos das laranjeiras caem antes de brotar, o mato cresce em meio à cerâmica portuguesa e os insetos começam a entrar na casa. E a se sentirem confortáveis ali dentro.
Quando o capim crescia em ordem, na época das grandes chuvas, João ia com sua foice para cortá-lo junto com o pequeno Daniel. Ela pedia para ir também, queria sentir as galochas azuis no charco plec plec plec. O sol se abria e iluminava o matinho grudado no bico da bota de borracha. Muitos anos depois, no dia em que o sol se fechou para sempre, havia um umbigo caramelo. Com gotas de suor nas pontas das hastes de pelo, formando pequeninas árvores transparentes de caules negros. Em silêncio. E mangas que comidas com jeito deixavam fiapos no dente e a língua lerda. Havia as barrigas que sobem e descem porque o ar entra e sai e porque é assim mesmo que deve acontecer. Daniel olhava para o céu. Parado e sem nuvens. As gotas de suor faziam redemoinhos e caíam dentro do fosso do umbigo. Ele dormiu um sono sem sonhos, debaixo da mangueira, dentro da sua pele proibida de se misturar com a dela, desde quando os avós de seus avós foram trazidos da África para um grotão de terra em Minas Gerais. No Dia do Antes havia uma fita vermelha, uma menina sem roupa e os olhos de um pai.

Havia o Amor e havia Daniel.

Mas primeiro, vamos falar de Luís.

para-ler-escritoras-giseleSobre a Autora

Gisele Mirabai é escritora, natural de Belo Horizonte (MG). Pós-graduada em Literatura pela UFF, estudou cinema na London Film Academy e licenciatura em Artes Cênicas pela UFMG. Seu livro juvenil Guerreiras de Gaia é adotado por diversas escolas do Brasil. Também é autora de Nasci pra ser Madonna(menção honrosa de melhor livro juvenil pela CEPE), Onde Judas perdeu as Botas (selo Edith) e de MACHAMBA, seu primeiro romance, vencedor do 1º Prêmio Kindle de Literatura.

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Machamba (Nova Fronteira, 2017)

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