Para Ler Escritoras, Uncategorized

#30 • dois trechos de diário: a mulher e o cavalo, de julia raiz

Destino

Esse é um diário como um chiclete bem mastigado, o registro de uma obsessão: ouvi duas garotas que conversavam no ônibus sobre as mães dos ex-namorados e como elas ainda telefonavam umas para as outras para combinar passeios por lugares públicos, falam com as mães sobre os meninos muito rapidamente e logo partem por outros caminhos não como parentes de sangue, mas como amigas de braços dados dividindo o mesmo canudo, na infância poderiam ter tomado banho juntas ou gravado vídeos caseiros. Existem essas crianças debaixo da terra pisoteada, existem essas meninas que precisam ser colhidas como tubérculos e sacudidas. Uma gengiva alta, uns dentes de cavala, os molares, os pré-molares, os caninos, os dentes da frente ainda serradinhos embaixo da terra crescendo num pé de qualquer coisa vão parar debaixo do colchão de homens poderosos como na história da princesa e da ervilha. Era uma vez num reino distante uma noite de tempestade, bateu na porta do castelo uma menina desmanchada pela água, dentes da frente como de um cavalo adulto, muito rota e cabelo sem volume. Deixaram a menina entrar a custo porque já tinha bem dezesseis anos e elas nessa idade são terríveis porque já sangram e sabem esconder pequenas coisas nos bolsos como talheres, bibelôs e peças de tapeçaria. Torceu a barra do vestido na porta e limpou os pés no carpete surpreendendo os empregados disse que viera de muito longe e viajava à procura de casamento com o Príncipe Montador. Foi preparado para a hóspede um quarto na torre alta, o mais perto possível do elevador de serviço, e para verificar a veracidade da sua ascendência nobre pediram que ela dormisse numa cama com 27 colchões cobertos por 27 edredons escondendo no fundo da alma uma ervilha. Garantida a ceia, o banho, a camisola improvisada, foram todos dormir sonhando a eficácia da armadilha, assim que as últimas luzes se apagaram, porém, da janela voou um colchão e outro e outro até que os 27 estivessem muito bem posicionados, a menina guardou a ervilha, a presilha, a água de cheiro, o candelabro, a sela no bolso e saltou pela janela.

 

Imperatriz Barbe

Gostaria de poder contar as impressões dos últimos dias como os cavalos pastavam, de costas para o mar, ainda mais alheios à minha existência como me senti uma mulher comum quando não mergulhei na escuridão à noite cada vez mais afastada das meninas gordas que dançavam enquanto os lencinhos eram agitados no ar, não caí da pedra, não bati a cabeça, não transei no resto de rede entre as carcaças dos caranguejos como previa o capítulo anterior, não consegui formular frases para dizer que o homem com quem eu estava naquela noite era tão comum quanto a cama, o criado mudo, a moça da recepção. Só consegui admitir no formulário que a única pessoa que amei foi a minha amiga de infância com quem eu tomava banho, ela alisava as minhas pernas e gostaríamos de viver para sempre juntas, em vez disso nos envolvemos com estes e aqueles meninos mirrados, pálidos, curvados, ineficientes. Meu médico disse que eu tenho pálpebras de rinite alérgica, que eu mato os bebês por dentro, que eu sou uma pessoa rara e tive que segurar o riso enquanto ele puxava meu dedão para trás e o encostava no meu braço. De dia, encontrei um poeta num lugar público, ele conversando comigo olhando sempre em frente como se eu não estivesse ali, de noite, sonhei com ela cantando poesias, existe alguma coisa debaixo da sua pele que se mexe quando ela abre a boca, eu não sei de onde ela veio lá do norte talvez, vou relaxar meus ombros vou voltar a escrever o que eu quero e só porque eu posso e esse diário é só meu, eu tenho total controle sobre ele e escrevo o que eu quiser. O poeta me perguntou onde eu quero chegar eu respondi o mais alto possível desde criança eu já tinha um queixo que apontava para cima, gritava para minha mãe ficar calma, não dar uma de louca, não dá uma de louca eu gritava. Ela tinha uma amiga que gostava de mulheres, morava numa casa pequena na beira da marginal todos aqueles carros passando diariamente deixam uma pessoa louca, é preciso ter algumas plantas, pelo menos um cachorro, acender um baseado três vezes ao dia, dançar, vestir roupas coloridas, é preciso desviar das ofensas, ser sempre superior senão você acaba martelando o sujeito na cabeça.

Sobre a Autora

julia raiz é doutoranda na área de estudos da tradução pela ufpr, professora no cursinho “tô passada” do transgrupo marcela prado e militante na UBM (união brasileira de mulheres). também edita totem & pagu – firma de poesia e pontes outras, blog dedicado à tradução de literatura escrita por mulheres. “diário: a mulher e o cavalo” (2017, Contravento editorial) é seu livro de estreia.

Conheça outros projetos de julia raiz

Totem e Pagu • Poesia

Pontes Outras • Traduções de textos teóricos e literários de textos escritos por mulheres

CADASTRE O SEU EMAIL PARA RECEBER OUTROS TEXTOS DO PROJETO ♥

Deixe uma resposta