Para Ler Escritoras

#5 • As flores também nascem em Monte Castello, de Paulliny Tort

O

jardineiro aguava as roseiras quando encontrou o crânio. Uma cabaça amarelada, feita de placas cosidas umas às outras, reluzindo sob a luz tênue da manhã. De longe, parecia um cogumelo, uma coisa bonita que havia crescido durante a noite, na grama em frente ao hotel. Ou uma bola. Ou uma pedra. Mas era um crânio. Humano. Com uma imensa mandíbula que se projetava para frente, pronta para abocanhar a canela de algum transeunte. Valha-me, Deus! Minha Nossa Senhora! O homem jogou longe a mangueira.

Ninguém podia mexer até que a polícia chegasse. E a polícia demorou séculos. Tempo para que conjecturas fossem feitas, hipóteses fossem levantadas, para que as pessoas se benzessem e orassem pela alma do indigente. Era um viciado em drogas. Uma prostituta. Um pivete, talvez, a depender da idade. Com certeza, gente que não presta, porque aquela era uma região tomada por vagabundos. Outros apostaram em magia negra. Vingança. Briga com vizinho. Suicídio, não sei como, mas nunca se sabe. Problema de herança. E o crânio lá, quieto. Autista. Indiferente ao burburinho, às idas e vindas dos empregados do hotel que não sabiam o que fazer para manter a prova do crime intacta.

Para espantar os insetos, o gerente abanava o crânio com um lenço bordô. Petelecou uma joaninha que caminhava sobre o osso parietal no instante em que os peritos chegaram. O chefe da polícia não gostou. O senhor sabe que não pode tocar a prova? Mas não toquei, eu só estava… Não interessa. Afastaram o povo. Cercaram o crânio, num raio de quatro metros, com uma fita amarela e preta, cinematográfica, POLICE LINE DO NOT CROSS, algo assim, só que em português. Depois foi aquele monte de bundas para cima, acompanhadas de joelhos no chão, olhos, lupas, luvas de látex e pincéis que vasculharam cada polegada, cada milímetro cúbico do crânio.

O chefe ensacou a peça. Um saco de plástico transparente, igual aos que guardamos batatas no supermercado. O crânio ficou brilhando ali dentro, feito um legume exótico, pesado. A imprensa já estava no local. Repórteres se digladiaram em busca da melhor imagem, da descrição precisa da cena, do impacto. Àquela altura, mais gente se apinhava para ver. Câmeras compactas, celulares, selfies. No Facebook, a notícia corria rica em adjetivos e expressões de indignação. Horrível. Monstruoso. Inadmissível. Até quando? A culpa é do PT. Os peritos, abrindo caminho por entre os jornalistas, levaram o saco embora. Apenas o chefe falou por eles: Ainda é cedo pra afirmar qualquer coisa. Vamos prosseguir com as investigações. Mas tudo indica que esse crânio não é de alguém que morreu por esses dias.

Não demoraram doze horas para chegar ao responsável. As câmeras de segurança na área externa do hotel registraram tudo. Às cinco da manhã, um homem de aproximadamente sessenta anos encostou o carro, desceu e jogou o crânio no jardim, como se atirasse um miolo de maçã, uma coisa qualquer, perecível, que ninguém notaria. O Departamento de Trânsito colaborou para que a polícia localizasse o motorista e, aproveitando o ensejo, guincharam o carro por documentação vencida. Isso depois de os peritos passarem o veículo a pente fino. Dois coelhos com uma cajadada. Dois pássaros na mão. Dois. O sujeito podia ser perigoso.

Humilde, gola fechada, encolhido na cadeira da delegacia, o homem aguardou pelo interrogatório. O delegado foi direto ao assunto. De quem é o crânio? Do meu pai. Do seu pai?!! Não! Não é do meu pai! Mas meu pai guardava. Morreu mês passado. Ele foi pracinha, doutor. Lutou em Monte Castello. Contou que era um velho quase sem palavras. Um velho que sofreu de gota, artrite e angina. Um velho que escondeu no porão uma mala cheia de recordações estranhas: junto ao crânio, havia insígnias, cadernos, um isqueiro, um broche de mulher, recortes de jornais italianos, coisas da Segunda Guerra. Passou a vida tendo delírios, alucinações; pensava estar entrincheirado. Depois da morte do pai, o filho decidiu se desfazer das lembranças na mala, pois eram tétricas e embaraçosas.

E por que o senhor jogou o crânio no jardim do hotel? O homem explicou que, por se tratar de uma zona de meretrício, frequentada por gente bizarra, talvez alguém se interessasse pelo objeto. Dava pena botar no lixo. Esdrúxulo. O delegado mandou que trouxessem a prova. Um policial enluvado entrou na sala e pôs o crânio na mesa, sobre uma flanela azul. As órbitas nuas, os dentes grandes, rachados. Difícil acreditar que era de uma pessoa que viveu e viu e andou. O senhor sabe a quem pertenceu essa caveira? Não sei, mas deve ser de soldado, né? O seu pai não escreveu nada a respeito? Não que eu saiba. E o senhor acha que o soldado era amigo ou inimigo? Ah, doutor, não faço ideia. Mas tem cara de amigo, não tem? O delegado ajeitou os óculos, olhou para o crânio, olhou demorado, e acabou achando que ele sorria um pouquinho.

Sobre a Autora

Paulliny Gualberto Tort é jornalista e apresenta o Marca Página, programa da Rádio Nacional sobre literatura. Também atua como colunista da rede de autores Ornitorrinco e é editora de literatura do blog O Cafezinho. É autora do romance Allegro ma non troppo (2016, Editora Oito e Meio), finalista do prêmio Oceanos em 2017.

Encontre o Livro

Allegro ma non troppo (2016, Oito e Meio)

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