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Como se tornar roteirista (em cinco passos nada fáceis)

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om, se você tem a vontade de trabalhar como um(a) roteirista, de fazer um curso de escrita de roteiro, independentemente de quão avançado(a) ou não você esteja no caminho para se tornar um(a) verdadeiro(a) screenplay writer, suponho que contar histórias seja algo que você gosta muito de fazer.  Essa é a parte fácil. Porque contar histórias é natural para os seres humanos. Gostamos de contar, gostamos de ouvir, gostamos da reação que provocamos nas pessoas ao contar uma história deste ou daquele jeito.

Mas contar histórias em roteiros não é um contar, assim, só por contar, como quem diz para a avó como foi o último semestre da faculdade ou como alguém que relata uma viagem de férias em Fortaleza para um vizinho, durante o tempo que dura a subida do elevador. Para ser um(a) roteirista, você tem que aprender a contar histórias através da descrição de ações.

E essa parte não é tão fácil nem tão natural assim. Mas garanto que é uma arte que se aprende. É claro que os roteiristas gênios (e tudo bem se você ainda desconhece os mestres clássicos do roteiro e os mestres contemporâneos do roteiro) têm qualquer coisa na vida (sorte, DNA ou, quem sabe, horas a mais de estudo de storytelling) que fez com que eles tivessem um clique e descobrissem uma maneira de subverter uma forma, uma estrutura, para gerar um efeito novo. Em muitos casos é assim, a partir da subversão de uma forma narrativa pré-estabelecida, que se faz um filme de sucesso — que, claro, não tem necessariamente a ver com números de bilheterias.

Em outros casos, no entanto, e aí entra a parte da escrita de roteiros que pode ser 100% aprendida, os filmes que conquistam nossa atenção, que nos emocionam, que cativam fãs no mundo inteiro, têm todos uma estrutura comum.  

Por mais que a gente teime em aceitar, a verdade está naquilo que sempre escutamos: para subverter uma forma, é preciso conhecê-la. Bem. Em sua totalidade. E quando eu falo de forma aqui, eu estou querendo dizer que existem teóricos da estrutura do roteiro (oi, Goldman!), que acreditam que o primeiro ponto de virada de uma história deve estar na página 17 do roteiro. Pre-ci-sa-men-te na página 17. Por que? Isso é uma das coisas que você vai descobrir ao estudar técnicas de storytelling.

Eu sei que falar em técnica de escrita pode partir no meio a sua ideia romântica do escritor frustrado sentado na máquina de escrever enquanto fuma um cigarro e rasga e amassa folha-após-folha. Mas se você quer ser um(a) roteirista, essa é a primeira noção que você tem que internalizar:

Um bom roteirista domina a técnica.

Diferentemente de um escritor de romances ou contos ou crônicas ou mesmo de ensaios, pela minha breve experiência acredito que um(a) roteirista, em nenhum momento da escrita, sente o pé descolando do chão ou se entrega ao inconsciente. Mesmo que isso aconteça, uma posterior releitura acaba limando qualquer trecho mais reflexivo ou introspectivo do texto. É claro que ficamos exultantes quando temos uma ideia boa e às vezes ela voa pro papel mais rápido do que os dedos são capazes de digitar, mas mesmo nesses momentos temos que estar conscientes de que a escrita de roteiro não é um fim em si. Como já dizia Kubrick,

“Um roteiro não é feito pra ser lido, é feito para ser transformado em um filme”

(Frase do livro: Stanley Kubrick: A Biography, de Vicent LoBrutto. No original: “A screenplay isn’t meant to be read, it’s to be realized on film”). Daí, já conseguimos tirar a segunda noção a ser internalizada para que você se torne um(a) bom/boa escritor(a) de roteiros:

O filme não vai ser, nunca, exatamente como estava no roteiro.

Das artes, o cinema é uma das mais colaborativas. Roteiristas, diretores, editores, diretores de arte, de fotografia, de elenco, cenógrafos, músicos e todas as outras pessoas envolvidas na produção de um filme conversam e tomam as decisões, em maior ou menor grau, em grupo. E não com o objetivo de horizontalizar a produção de um filme ou qualquer coisa do tipo, mas porque cada uma das pessoas tende a aprimorar o storytelling a partir da sua visão de mundo. Afinal, duas pessoas nunca vão contar uma história da mesma maneira e isso, a inserção de um novo ponto de vista sobre um acontecimento, sempre, SEMPRE, enriquece uma narrativa. Para não perder a chance de citar David Foster Wallace: “a mesma experiência pode significar duas coisas totalmente diferentes para duas pessoas diferentes” (trecho de Isso é Água).

Essas duas noções básicas não mudam o caminho a ser percorrido para que você se torne roteirista. Para que isso aconteça de verdade, diria que são necessários cinco passos. Então vamos, finalmente, aos cinco passos para se tornar roteirista:

1) Assista a maior quantidade de filmes que puder.
É sério. A maior quantidade de filmes. E não só os americanos, mesmo que você goste dos americanos menos comerciais. Explore cinemas de outros países, outros continentes, explore o verdadeiro cinema brasileiro. Só assim você vai conseguir dar um passo além nas suas habilidades de construir roteiros.

2) Estude inglês.
Talvez você não estivesse esperando que esse fosse um dos passos, mas não tem pra onde fugir. Vou chutar que uns 93% do conteúdo disponível na internet sobre fazer roteiros está em inglês, talvez uns 5% em francês e o restante dividido entre as outras línguas. É triste e é empobrecedor, em vários sentidos, mas é o que acontece. É hora de garibar o seu the book is on the table. A teoria está em inglês, os roteiros que vão ser analisados na maioria dos cursos está escrito em inglês (estou fazendo um esforço para traduzir alguns textos importantes sobre a escrita de roteiros para o português, então, se você tiver pedidos de tradução, escreve para oi@escrevo.etc.br).

3) Leia roteiros.
Se você leu até aqui, essa ideia ficou implícita. Não é porque o filme é o “produto” final que você vai ignorar justamente a parte do processo que quer conhecer, certo? Leia roteiros antes de ver os filmes, leia roteiros depois de ver os filmes, leia roteiros junto com os filmes, cena a cena, e analise as diferenças entre os dois. Aqui tem boas indicações de sites onde encontrar roteiros.

4) Estude a estrutura.
Leia livros sobre escrita de roteiro, faça cursos de escrita de roteiro, se matricule em oficinas de escrita de roteiro, faça exercícios de escrita de roteiro, veja vídeos sobre a escrita de roteiro, assista canais de análises de filmes com ênfase em roteiros, ouça podcasts sobre escrita de roteiro, siga roteiristas no instagram ou até mesmo faça uma graduação ou pós-graduação em escrita criativa. É isso: roteiro, roteiro, roteiro.

5) Escreva.
Não tem como escapar. Você pode ler todos os livros e assistir a todos os filmes, mas você vai precisar sentar e aprender a escrever. Você vai empacar nas transições de cena, vai bater a cabeça com os diálogos, vai ficar perdido no clímax e não vai ter a mínima ideia de como terminar. É nesse momento que a estrutura fixa vai se estender como uma mão salvadora e te resgatar dos escombros dos princípios do roteirismo. Escreva seu primeiro roteiro de longa-metragem, do começo ao fim, e depois você pode partir pra outras aventuras. Mas escreva. 

Ufa! Acho que dei conta de dizer umas primeiras palavras, né? Agora só posso te desejar boa sorte e boa escrita!

Se você se interessa por roteiros, acho que você pode gostar destes links:
Curso de Estrutura de Roteiro
Leia os roteiros dos filmes indicados ao Oscar 2018
Onde encontrar roteiros de filme para ler

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Comments (2)

  1. Adrielli:

    Adorei as dicas. Fazem todo o sentido (ha!) e me deram um bom norte para a minha situação no momento. Obrigada! 🙂

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