Para Ler Escritoras

#6 • Feliz Aniversário, de Luisa Geisler

A

s tias permaneceram no carro, Sofia e a mãe só buscam o bolo, questão de minutos. Saem da confeitaria, a mãe carregando, com as duas mãos, a caixa. No banco do carona, Juliana, a prima, destrava as portas. Os óculos de sol, a janela aberta e a camiseta de mangas longas da prima são incompatíveis. Juliana emagreceu muito desde a última vez que ela e Sofia viram-se.

Enquanto Sofia planeja sua entrada no banco traseiro, Juliana ― no banco da frente ― ajeita as mangas longas.

As duas tias, ambas com IMC de classificação de, no mínimo, obesidade mórbida, empurram-se para que Sofia entre no carro, no banco de trás, ao lado delas. A mãe de Sofia insiste que ela coloque o cinto de segurança. Sofia coloca-o, ajusta a postura, sente o apertão no peito. Ajusta as pernas com dificuldade no banco de trás do carro, as tias grunhem a cada movimento. Apertam-se. A mãe coloca devagar a caixa de papelão no colo de Sofia. Mal a mãe vira-se para o volante, ela enche a filha de recomendações. A caixa gelada pesa no colo da garota.

Sofia mexeria mais as pernas se pudesse, se não tivesse um metro e oitenta. Um metro e oitenta que se tornaram um metro e oitenta só de pernas. O banco vibra enquanto a mãe liga o carro e dirige-se à casa de Juliana e da tia. Juliana permanece em silêncio, mexe nas mangas, puxa-as para cima das mãos.

As tias voltam à conversa em voz alta com a mãe de Sofia. Falam da festa. O calor deixa marcas de suor nas roupas de tecido estampado, na região das axilas. Sofia concentra-se no bolo dentro da caixa: o bolo da prima é bonito, sim. Confetes coloridos cobrem o bolo, o recheio tem camadas coloridas das cores coloridas do colorido do arco-íris. O bolo tem ― conforme a atendente chama ― uns três andares de glacê magenta. O peso pressiona as pernas de Sofia, machuca. As tias falam dos salgadinhos, da festa, dos convites, da decoração da casa, telefonemas, de quem virá à festa, de quem não virá, xingam os ausentes com palavrões.

― Mas nem por isso as pessoas tinham que deixar de comparecer ― diz uma tia. ― A gente não precisa se ver só em aniversários.

Sofia imagina que a mãe se esforce para ouvir as tias com os ruídos de carro, que entram pela janela escancarada de Juliana. A mãe, dirigindo, olhando as ruas, os carros, diz:

― É que muita gente se magoou. Acham que é coisa de gente mimada.
― E não vir quer dizer o quê?

Juliana pede, sua voz baixa, pede que mudem de assunto, que falem de outra pessoa. A tia baixa a voz, volta a falar dos salgadinhos de festa, do bolo escolhido colorido com colorido colorido colorido especialmente para a festa. Reclama de um farol onde pararam.

O carro abafa-se com a espera sob o Sol, calor, bolo úmido. As pernas da tia ao lado prendem, cada vez mais, Sofia entre a porta do carro e contra a gordura da tia. Sofia sente suas pernas mergulharem no tecido adiposo, a gordura da tia abraça o raquitismo de Sofia. Sofia respira fundo, sentindo o cheiro do aromatizador de lavanda, o cheiro de rua entra pela janela. Náusea. Falta-lhe ar, falta-lhe ar, todo o ar do carro, todo o ar das janelas escancaradas é supérfluo, falta-lhe ar dentro do pulmão, ela nunca encherá o pulmão de oxigênio por completo, falta-lhe silêncio.

Sofia inspirando e expirando, repetindo para si que tudo ficaria bem, a umidade do bolo atravessando a caixa atravessando a calça jeans até as coxas magras, até os ossos.

Juliana vira o pescoço para trás, o cinto de segurança impedindo-a de virar-se inteira. Juliana olha para Sofia por trás dos óculos de sol. Os óculos de sol cobrem metade do rosto e metade da expressão. Com um sorriso literalmente amarelo, Juliana diz com a voz baixa:

― Tá tudo bem aí contigo?

Juliana voltou para casa há apenas uma semana. A umidade do bolo atravessa a caixa e atravessa a regata de Sofia, gruda na barriga. Juliana perdeu tantas aulas na universidade, talvez o semestre inteiro, talvez reprovasse por faltas. Sofia sentiu a falta da prima durante Antropologia IV, quis dormir durante todo o pós-estruturalismo.

O celular tocara num dia de calor idêntico. Sofia lembrava-se que naquele dia vestira uma jaqueta de moletom sobre o pijama e passou calor no hospital sem poder tirá-lo. Sofia não se recordava se o calor pertencia àquele dia ou ao moletom. Mas o corpo inteiro suara. Parecia a Sofia que tudo aquilo fazia anos, mas foram semanas. Sofia, de férias, meio adormecida em casa, recebendo a ligação dos tios no meio da tarde.

Sofia lembrava-se que fazia brigadeiro de panela naquela tarde.

Chamaram Sofia e a mãe ao hospital. Sofia sujou o pijama, vestiu a jaqueta de moletom. Os tios deveriam estar em viagem, mas sentiram-se culpados de deixar Juliana sozinha. A família deveria viajar em conjunto, como sempre fizera. Voltaram. Na sala de espera, as lágrimas emolduravam os discursos de “e se…”, jogando as culpas em todos os lugares e pessoas. Sofia baixou a cabeça quando os pais perguntavam a ela por que Felipe, o namorado de Juliana, não atendia aos telefonemas deles. O médico acalmava-os, afastava as preocupações, deixassem Felipe de lado, o pior já passara, Juliana estava bem, estava ali.

Quando eram pequenas, Sofia e Juliana gostavam de dançar atrás da casa, perto da árvore. A tia derrubaria a laranjeira para aumentar a garagem. Juliana chorou trancada no quarto ao saber da laranjeira.

Juliana sempre foi sensível demais.

O farol abre. Sofia sorri. O carro vibra com o movimento do motor, movimento das ruas. O cheiro de suor que vem das tias e dela mesma não a incomoda. O mormaço do carro, a umidade que Sofia lança na camiseta regata dela, em sua testa, em torno de seu cabelo loiro preso num curto rabo-de-cavalo, nada daquilo a incomoda. O bolo pesa no colo. Juliana acabou de perguntar se está tudo bem lá, com Sofia, com Sofia e Juliana, a sensível Juliana, sem Felipe, mas com Sofia e Juliana e Sofia sorri:

― Tudo ótimo.

Sobre a Autora

Luisa Geisler escreve desde… sempre. Aos 19 anos, ganhou o Prêmio Sesc de Literatura de 2010 na categoria conto, pelo seu livro de estreia, Contos de Mentira, que também foi finalista do Prêmio Jabuti. Em 2012 publicou seu primeiro romance, Quiça, e em 2014 o seu segundo, Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente.

Encontre os livros

Contos de Mentira (Record, 2011)
Amazon | Saraiva

Quiçá (Record, 2012)
Amazon | Cultura

Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente (Companhia, 2014)
Amazon | Companhia das Letras

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