Para Ler Escritoras

#1 • Formiguinhas, de Natalia Borges Polesso

V

em caminhando com passinhos tão pequenos quanto os pés. Calça botinhas vermelhas de nylon, compridas até a metade da canela. Distrai-se com emendas de cimento entre uma pedra e outra do calçadão da praça. Finge que são rios. De longe, pai e mãe observam a menina do cabelo preto. Corre para perto dos pais. Quero comer. Já vamos, a mãe quer tomar um pouco de sol. Olha para a mãe que tem uma barriga tão pontuda, parecendo que poderia estourar a qualquer minuto. É, filha, quero esquentar meus pés. Passa a mão na barriga da mãe. Ela sabe que em breve teria um irmão, e disseram a ela que seria tão pequeno e frágil que deveria ter muito cuidado com ele. Toda vez que lembra disso fica ansiosa. Resolve brincar novamente. Acha na calçada um pedaço de arame, e dele faz uma lupa de detetive. Atrás da lente imaginária, olha a barriga da mãe e vê o irmãozinho que lhe sorri cúmplice.

Perto de uma árvore repara uma trilha de formigas. Pega sua lente e fica observando o vai e vem das pequeninas. Repara que se aglomeram a alguns passos. A menina começa a matutar o que poderia ser tão interessante assim que atrai tanta gente, e se corrige logo depois: tanta formiga. Remexe no bolso e encontra uma bala. Olha os pais sentados no banco. Sabe que não deve comer doces antes do almoço. Mas eles não saberiam mesmo, além disso, está com fome. Joga a bala na boca com a rapidez das formigas que vão e vem. Não quer atrapalhá-las, não quer assustá-las. Talvez se chegasse ao ponto de encontro, elas se dispersariam de medo. Então, tem uma ideia. Espreme-se num lugar na fila dela e ali segue, com passos tão mais miúdos quanto os que dava antes. Tem muito cuidado ao andar para não pisar em nenhuma delas. E se o irmão nascesse daquele tamanho? Aquilo já era um treino. Imagine se um dia pisasse no irmão, que menina descuidada seria!

Ao chegar perto da concentração, vê que se agitam e passam uma por cima das outras. Quando chega o mais perto que pode, dá um passo lateral e pega sua lente magnífica. Comiam. Comiam uma aranha. Que coisa nojenta, pensa, enquanto observa curiosa. Lembra que uma vez o pote de açúcar da casa da avó ficara cheio de formigas. Lembra também que não devia estar comendo aquela bala antes do almoço. E, entre a lembrança e o espanto, a boca se abre um pouco mais e a bala cai deixando um longo fio de saliva entre a menina e o chão. Limpa a boca rápido e olha novamente para os pais. A mãe ia se levantando e o pai acenava para que ela voltasse. Quando olha novamente para as formigas seu alvo já tinha mudado. A fila havia se envergado para o lado da bala. E pensa que talvez a mãe das formigas ficasse muito brava por ela ter estragado seu almoço. E com a botinha vermelha empurra os restos da aranha de volta ao caminho das formigas, que abandonam a bala de súbito e voltam a se agitar. O pai agora começava a andar em sua direção. Ele veria a bala. Então coloca a bala perto da aranha. E pensa no pai das formigas. Sente-se culpada e pensa que desse jeito não confiariam nela para cuidar do irmãozinho. O pai estava há alguns passos. Passa a mão na bala e na aranha e com uma sacudidela enfia os dois na boca e engole de um só golpe.

O que tu estás fazendo, pequena? Olhando as formigas. O pai sorri e passa a mão nos cabelos da menina. Vamos comer? A menina faz que sim com a cabeça e segue de mãos dadas com o pai.

Sobre a Autora

Natalia Borges Polesso é autora de três livros: Recortes para um álbum de fotografia sem gente (2013), Coração à corda (2015) e Amora (2016), livro vencedor do Prêmio do 58° Jabuti na categoria Contos e Crônicas.

Livro

Formiguinhas é um conto da sessão “Porque é estranho conter silêncios”, do livro Recortes para um álbum de fotografia sem gente (2013), da editora Modelo de Nuvem.
Encontre: Cultura | Travessa | Submarino

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