Para Ler Escritoras

#11 • Columbídeas, de Carol Rodrigues

C

ontam que ela olhava um horizonte inexistente mas olhava tão longe via mesmo o Grande Santo, que ela usava sete saias cada uma de um tom dos sete tons da terra e que por baixo delas nada havia mas que cada saia ornamentava um corpo maior do que era um corpo de boneca em tamanho irreal de gente. Contam que ela usava blusa de botões sempre a mesma ou tinha várias tão iguais até nos rasgadinhos e remendos, que ela não falava com ninguém mas que falava com os bichos, que foi muito bem repreendida quando pintou de batom os bicos das galinhas e que outra vez tentou amamentar um cabritinho e saiu com o peitinho ferido que o mamante tentou mesmo alguma alimentação.

Outro episódio foi o das corujas: que ela esperou chegar a noite e saiu na procura as passaronas que pousavam na campina ela tentou de tudo a estabelecer a conexão da sabedoria, dizem, ela emitia frequências que as outras até respondiam e que uma até deixou com ela a coruja filhote pra que ela cuidasse em sua ausência, mas levou a corujinha pro quarto de dormir e a bicha estranhou e acordou as tias e tomou a sova e voou pela janela e tomou a bordoada rasante também da coruja mãe, foi dito assim.

Um pouco mais velha teve o momento das minhocas, que ela embrenhou na terra pra ajudar a fertilizar com os seus líquidos e foi aí que passou a usar as sete saias, tanto para esconder o sangue que ela não estancaria quanto pra se fazer envolta. Quando algum rapaz tentava aproximar dos seus cabelos pretos e tão longos ela não era nem capaz de mexer a cabeça pros lados: eram unhas rasgando severas qualquer carne que surgia pela frente e contam que não tinha amigas, que as meninas tinham medo dos dentes, sujos, e que a comida ela mesma achava pelo chão e que a cama não era nunca desfeita, ou que ela fazia com afinco todas as manhãs, são muito vagos os relatos e aí teve o dia da pomba.

Contam que ela sentiu uma asinha bater no cotovelo e não espasmou, não foi ruim. A pombinha bateu as penas um pouco mais pra cima e talvez tenham se olhado nos olhos. Deu uma guinada cuidadosa pra direita e o biquinho foi devagar pra dentro do buraquinho da orelha: bic, uma bicadinha. Ela encolheu cabeça e corpo no pescoço mas no fim do gesto sorriu ao invés de chorar. A pombinha deve ter assentido e mais uma bicadinha agora na ponta sul da orelha e ela dessa vez arrepiou. Um fiozinho de sangue, bem fininho, escorreu pelo lado esquerdo do rosto oval porcelanato. A pombinha desceu quente ao pescoço e a espetada ali fez ela gritar bem baixinho. A pombinha temeu acelerou e bicou três vezes no mesmo espaço bic bic bic a terceira delas com mais força. Ela tapou com a mão onde escorria um sanguinho mais grosso e a pombinha já avistava outro local o queixo. Bicou bem de leve quase beijinhos, coceguinhas, o que fez ela rir e abanar um pouco o corpo da sensação noticiosa e na sacudida a pombinha deve ter se confundido ou desnorteado bic: a boquinha carnuda. A língua sentiu o lábio inchado o ferro a pombinha se mantinha plainando ainda nessa altura, esperando talvez.

Os olhos acastanhados borbotavam mas não era compulsão: choro calmo que escorria salgando o cavado. E os olhos molhados fechados peito aberto pra pomba um botão, depois o outro, a bicha se esgueirou pelo restante da blusa e deve ter avistado o bico pedinte do seio. Rodeou com seu biquinho ainda os arredores do peito, a polpinha de baixo, calafrios que ela conseguiu controlar, não assustar, a pombinha, tomava uma distância segura para encher, de vez, o bico seu do bico dela.

A blusa foi enfim inteira aberta e a saia retirada, uma por uma as sete saias, a pombinha parecia aguardar. A calcinha ela não portava então em pelos se encontrou depois de tudo e se deitou com cuidado no chão daquele pátio: o cuidado sempre grande pra pombinha não se exonerar. Esperou e quando teve certeza da inércia do corpo ao chão foi certeira e de olhos bem abertos ao umbigo tão quentinho e bic bic foi abrindo um canal umedecido de calor.

Ela pouco se mexia, muito cuidado pra não assustar, e mesmo com todo esse acurado a pombinha depois de chegar ao mais profundo e quente voou pra bem longe e sem aviso. Ela ergueu a cabeça e balbuciou por quê e entristeceu olhos fechados. Não tardou sentiu rufar maior de asas. Coordenados os bicos agiram juntos por tudo até a pontinha do dedão. Ela sorriu, espasmou, babou um pouquinho e tossiu com muito cuidado de não engasgar.

Quem passou ali afugentou nos braços e conta que a esse gesto ela gaguejou, enternecida, mas por quê, se o amor voltou.

Sobre a Autora

Carol Rodrigues é escritora. Seu primeiro livro, Sem Vista Para o Mar (Edith, 2014), recebeu os prêmios Jabuti e Fundação Biblioteca Nacional. Em 2017 publicou a novela digital ilhós (e-galáxia). É formada em Imagem e Som pela UFSCar e tem mestrado em Estudos de Performance pela Universidade de Amsterdam. Nasceu no Rio de Janeiro e vive em São Paulo.

Columbídeas é um conto integrante do livro Os Maus Modos, ainda inédito.

Leia mais de Carol Rodrigues

Sem vista para o mar (Edith, 2014)
Hedra | Travessa 
ilhós (e-galáxia, 2017)
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Comments (1)

  1. Dayanne:

    Muito forte e muito singelo ao mesmo tempo. Fiquei chocada, senti tudo muito forte dentro de mim. Incrível, simplesmente incrível.

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