Para Ler Escritoras

#12 • Escaleno, um conto de Luci Collin

E

m F amo as expressões equilibradas, a habilidade em elaborar enredos riquíssimos para descrever pequenos acontecimentos abalando assim a estreiteza dos cotidianos, emprestando luz ao fosco ao embrutecido. E quando vejo a sua boca dizendo sobre a vida, me orgulho em pertencer àquele universo, me alegra saber que os toques daquelas mãos muitas vezes vêm em direção ao meu corpo e que encontra, F como um todo, conforto e talvez júbilo também em como eu nos exerço. Amo a serenidade do rosto que compreende meias-palavras, que conhece e respeita a profundidade dos olhares perdidos em nada, que sabe e recita odes em silêncio. Há conforto quando me diverte com sutilezas, quando levanta risos sinceros dos quase imperceptíveis. Em F amo o discurso do corpo que frequenta o meu, antes, que harmoniza com o meu com delicadeza singela, que revela o encanto das melodias simples e eu repouso num inteligível que me faz sempre bem. De F preciso da placidez dos encontros, da proximidade no escuro, dos olhos reconhecendo nos meus a maneira invisível como o tempo se alastra pelos olhares contaminando de lembranças, tristes muitas vezes, tudo o que se vê. Empresta dignidade e nitidez àquela sensação de entendimento que só os cúmplices podem ter. É magnífico o fruto do amor que F faz vingar em mim, é sólido é manso é confiável é maduro é translúcido é belo é único é absoluto.

 

O polígono mais simples e que inspira mais
confiança, o triângulo, foi considerado por
Platão o elemento-chave para a compreensão
do Universo e de todas as coisas.

 

Teria vagado no deserto até enlouquecer por tanta inexistência ao meu redor Teria tomado o veneno que existe no escondido do armário do banheiro Teria fincado aquele punhal no próprio peito Teria me flagelado até ver sangue até sentir tamanha dor e a vergonha do desespero que o esquecimento de mim me extinguisse enquanto alguém Teria andado na madrugada até o ar gelado não chegar e eu nunca mais respirar Teria deixado a água tomar meus sentidos depois que meus braços desistissem de alcançar a margem Mas tendo você dito Sim finalmente agora eu ouço as minhas juras as suas juras as palavras abertas explodindo as palavras ingênuas a fome e o desespero das vozes o que sussurram as frases perturbadas loucas mesmo perturbadoras E a minha língua a sua língua eu faço as surpresas brotarem da boca dos lábios que eu não sei serem seus serem o infinito, já que tento medir com meus beijos e me perco e recomeço e me perco e a aventura é sem fim e a minhas mãos não sossegam e eu quero me apoderar de maciez e contornos e entender pedaços que soçobram mas perco neste jogo perco porque inexistem regras e vale só o que seus odores determinam o que os seus olhos encenam.

 

Polígono de três ângulos e três lados.
Porção de plano compreendida entre três
linhas retas, que se cortam e que
terminam nos pontos de interseção.

 

Não devo amar N e não amo. Não amo em N o que vejo e sinto e sei precioso em F. Mas desejo, insanamente desejo e é uma incompreensão misturada com êxtase, é um descaminho que conscientemente se traça, um despropósito marcado pela finitude da sede dos corpos que prescindem parâmetros para existirem. Não conheço de N essências nem divido com N aquilo que entendo lá por dentro. Mas acordo e penso em ter aquele corpo e passo as horas naquele delírio das ausências e passa-se o dia e é noite de novo adormeço e faço de N o objetivo dos sonhos e acordo e penso em ter aquele corpo. Enlouqueço, possivelmente. Não é justo olhar F nos olhos. Não é lícito beijar a sua boca — é o mentido. É indecente abraçar F no escuro. Sinto uma impureza se espalhando através de tudo o que digo. E não é justo apenas ficar em silêncio. E é claro que não devo amar N e não amo. Mas quero. Perdidamente anseio por aqueles beijos malditos a única possibilidade de sobrevivência.

 

Os pontos de interseção das retas que limitam
o triângulo são os vértices, os segmentos limitados
pelos vértices são os lados,
a perpendicular baixada de um vértice ao lado
oposto marca a altura relativa ao lado considerado.

 

Inebrio N com frases faço reverberar em seus ouvidos o despudor dos adjetivos impuros e o corpo de N aprecia o descompassar dos sentidos vibra e eu me delicio e eu queimo e perco o sentido e recupero o sentido apenas para constatar: isto é tão irreal que nada além deste momento existe. E a minha filosofia é tão ridícula que rio, que gargalho, que calo sem pretender aclaramento. Então existem só os sons doces e os encantamentos tornados eternos pelos beijos e tornados imediatos pela sofreguidão do indiscursivo. Pelo abismo que nos circunda e pelo ar sufocante que é a atmosfera do quarto e por aquela tristeza felicidade que sempre impregna o exercício do desejo louco. Nesta escuridão negrume treva cegueira, no invivível no desmesurado no generosamente belo e infame toco N e penso ter N por inteiro. E só neste breve momento sinto o quanto tudo existe.

 

Os três ângulos e os três lados de um
triângulo constituem os seus seis elementos
principais. A soma dos ângulos de um
triângulo é igual a dois ângulos retos.

 

Se F dissesse se ordenasse se gritasse Vá embora Vá embora já, eu tentaria fazer as malas mas estariam sempre vazias se F mandasse Vá eu levaria uma dor indescritível e saberia ser o começo da minha própria dissolução. Mas F não diz nada. Terá talvez vivido emoção parecida, obsessão como a minha? A sua será uma alma muito mais nobre que dissimula a compreensão do que acontece? A sua será uma alma fria? Ou benevolente? Sem respostas apenas olho de longe observo e penso o quanto amo a integridade de F e desprezo a minha dissipação.

 

A superfície de um triângulo é igual ao produto
da base pela metade da altura. A área de
um triângulo é igual ao semiproduto dos números
que exprimem a base e a altura.

 

N diz coisas ridiculamente imprecisas, desconhece quase tudo a não ser o imediato, o vulgar, a obviedade do seu discurso chega a machucar ouvidos. N tem uma limitação condenável, é incapaz de enxergar nos silêncios, desconhece o indescritível e a vida ao lado de N deve ser irremediavelmente monótona e medíocre. Dito a mim estas sentenças para que me orientem para que me forcem ver como N é em si o próprio absurdo e depois vejo N se aproximando e vejo as mãos maravilhosas e a boca e a voz e os relevos e as exigências e o gosto e aquelas sentenças com as quais tentei forjar as mentiras se estraçalham contra as pedras tendo despencado do alto de um precipício que eu nem diviso pois enquanto isto acaricio a pele de N e esqueço os absurdos que engendrei. Esqueço que jamais deverei amar N e o que faço tem muito de irreversível.

 

Um lado qualquer de um triângulo é menor que
a soma dos outros dois e maior que a sua diferença.
Considerando-se os lados do triângulo desiguais e
sendo S a sua área, qual a maior distância: entre o
ponto dado e F ou entre o mesmo ponto e N?

 

F nada diz. F a quem amo e de quem preciso. F a parte tangível o equacionável. A sensação de segurança o senso. Devo argumentar? Sobre o quê? Devo ir embora? Tentar esquecer envolvimentos e deixar a história sem final? Apagar rostos talvez, recobrar um rumo? Rever cálculos? Abrir o jogo? Devo tenho a obrigação de dizer a F o que se passa? E o que se passa? Em F amo as certezas. F a solidez de que preciso. Não devo amar N e não amo.

É noite de novo e eu faço de N o objetivo dos meus sonhos.

para-ler-escritoras-luci-collinSobre a Autora

Luci Collin é poeta e ficcionista curitibana. Tem quase vinte livros publicados entre os quais Vozes num divertimento (contos, 2008), Com que se pode jogar(romance, 2011), Trato de silêncios (poesia, 2012), Querer falar (poesia, 2014), finalista do Prêmio Oceanos, e A Palavra Algo (poesia, 2016), vencedor do Prêmio Jabuti. Participou de antologias nacionais e internacionais (EUA, Alemanha, Uruguai, Argentina, Peru e México). Traduziu G. Snyder, E. E. Cummings, Gertrude Stein, entre outros. Escaleno é um dos contos do livro Acasos Pensados (2008).

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