Para Ler Escritoras

#13 • 8 Poemas de Alejandra Pizarnik

Árvore de Diana

Trecho da apresentação de Marília Garcia ao livro Árvore de Diana:
“Lendo os diários da autora escritos neste período, podemos identificar algumas leituras que ela fazia e as preocupações com procedimentos e com os caminhos a serem tomados (“O que escrever? Para quê? Para quem? De que maneira? Quando? Como? Por quê?”.) O “medo de não saber nomear o que não existe” (e a necessidade de achar palavras para fazê-lo) colabora com o canto e com o tom melancólico dos poemas: “cantei a tristeza do que nasce”. E se o livro começa reforçando o canto, como neste verso, ele termina com um canto arrependido, voltado mais para o medo e para a impossibilidade de dizer. Mas, ao chegar ao fim, tudo já está dito e a “reação química” do título foi feita: “árvore de Diana” é a expressão usada para uma operação química que consiste em produzir, a partir de um metal, uma vegetação artificial que cresce como na natureza. A árvore de Diana é uma árvore metálica, de prata, também conhecida como “árvore filosófica”, poderia dizer espécie de encontro fortuito (para citar Isidore Ducasse) de uma máquina de costura e um guarda-chuva. Ou de uma reação química com a tristeza do que nasce.”

 

3.
só a sede
o silêncio
nenhum encontro
cuidado comigo amor meu
cuidado com a silenciosa no deserto
com a viajante com o copo vazio
e com a sombra de sua sombra

 

13.
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

 

14.
O poema que não digo,
o que não mereço.
Medo de ser duas
a caminho do espelho:
alguém em mim adormecido
me come e me bebe.

 

33.
alguma vez
alguma vez talvez
eu irei sem ficar
eu irei como quem se vai

 

Os Trabalhos e as Noites

Trecho da apresentação de Ana Martins Marques ao livro Os Trabalhos e as Noites:
“Promovendo uma inversão no título clássico de Hesíodo, Os trabalhos e os dias, poema épico composto entre o final do século VIII e o começo do século VII a.c., Proust publicou, em 1896, Os prazeres e os dias, uma reunião de contos e poemas de juventude. Outra é a inversão operada no belo título deste livro de Alejandra Pizarnik, Os trabalhos e as noites. É possível que não haja melhor título para um livro de poemas de Pizarnik, ou, talvez, para qualquer livro de poemas. Como indica o verso de Emily Dickinson, “Good morning, Midnight!”, o poeta é trabalhador da noite; seu labor é noturno, prefere o silêncio e a sombra.
Noite, silêncio, sombra são palavras-chave no vocabulário da poesia de Pizarnik. Trata-se, aliás, de um vocabulário bastante restrito; os poemas de Pizarnik giram em torno de um catálogo limitado de palavras e imagens: pássaro, cinza, pedra, noite, alba, infância, vento, chuva, sombra, silêncio, lilás… A partir de uma série reduzidíssima de elementos, Pizarnik compõe, como num jogo combinatório, seus poemas quase sempre muito breves, extremamente depurados, de uma terrível limpidez.”

 

QUEM ILUMINA
Quando me olhas
meus olhos são chaves,
o muro tem segredos,
meu temor palavras, poemas.
Só tu fazes de minha memória
uma viajante fascinada,
um fogo incessante

 

RELÓGIO
Dama pequeníssima
moradora no coração de um pássaro
sai à alba a pronunciar uma sílaba
NÃO

 

FESTA
Eu desdobrei minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
para meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.
E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
em um anjo, em copos vazios.

 

SOMBRA DOS DIAS POR VIR
A Ivonne A. Bordelois

Amanhã
me vestirão com cinzas à alba,
me encherão a boca de flores.
Aprenderei a dormir
na memória de um muro,
na respiração
de um animal que sonha.

para-ler-escritoras-pizarnikSobre a Autora

Alejandra Pizarnik nasceu no dia 26 de abril de 1936, em Avellaneda, cidade da região metropolitana de Buenos Aires. Flora Pizarnik era seu nome de batismo, e seus pais eram imigrantes russos judeus que chegaram à Argentina três anos antes de seu nascimento. Seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena, foi publicado em 1955 e assinado como Flora Alejandra Pizarnik. Em seguida vieram La última inocencia, de 1956, e Las aventuras perdidas, de 1958. Estudou filosofia, letras e jornalismo, porém sem concluir os estudos universitários. Em 1960, mudou-se para Paris, onde viveu durante quatro anos e travou amizades com os escritores Julio Cortázar e Octavio Paz, tendo este último escrito o prólogo de seu livro seguinte, Árbol de Diana, de 1962. Em 1965, após seu retorno à Argentina, publica Los trabajos y las noches. Seus livros seguintes são Extracción de la Piedra de Locura, de 1968, e El Infierno Musical, de 1971. Em 1972, aos 36 anos, Pizarnik morre após ingerir uma quantidade letal de barbitúricos, deixando escrito na lousa de seu apartamento: “Não quero ir/ nada mais/ que até o fundo.”

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Os textos e poemas fazem parte dos livros Árvore de Diana e Os Trabalhos e as Noites, de Alejandra Pizarnik, com tradução de Davis Diniz, publicados pela Relicário Edições. Ganhe um box (tiragem limitada) para os dois livros comprando na pré-venda pelo site!

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