Para Ler Escritoras

#14 • Poemas de Mugido, de Marília Floôr Kosby

1

localidade: passo da esguelada

O cliente ligou a manhã inteira para o pai, querendo saber o que faria com a vaca trancada, a mesma a qual ele havia dado consulta durante a semana. O pai diz que é melhor tirar o terneirinho morto, já que se pode salvar a vaca. Diz que cesárea é mais arriscado no caso de o terneiro estar morto, pois a putrefação cria substâncias tóxicas. O cliente nos busca de carro, ele e o filho, de cerca de oito anos, que fala como adulto. O pai cobra apenas cinquenta reais pelo deslocamento e a consulta, para que o homem não desista de busca-lo, e assim a vaca não sofra mais. Ao chegarmos na propriedade, uma pequena chácara arrendada, notei haver muitos bichos na volta da casa. As vacas ficam soltas e os cavalos também. Dois cães ficam presos, por serem brabos, e dois ficam soltos. Tinha uma cabrita que parecia cachorro, de tão mansa. O galinheiro e o chiqueiro também ficavam próximos à casa.

2

angélica,
o parto de uma vaca
não é uma coisa
simples
envolve um útero
imenso
que rebenta
e frequenta não raro
o lado de fora

um rebento imenso!

o parto de uma vaca
requer punhos
firmes
finos porém

matar uma vaca
não é
uma coisa simples
requer um tiro
certeiro
alto calibre
o ponto preciso longe
do meio da testa
dois cavalos três
ou quatro homens
um guri
quem sabe uma mulher

carnear uma vaca
exige sangrá-la
até a última gota
para que a carne
não termine
preta

sangrar uma vaca
é para exímios

comer uma vaca porém

3

Descemos até um mato onde estava Jaqueline, a mulher do proprietário, com a vaca doente. Jaqueline vestia botas de borracha e uma bombacha cor-de-rosa. Angustiada, afagava o pescoço do animal, que estava deitado de lado. Logo que chegamos, Jaqueline começou a vociferar contra a ideia de um vizinho, que teria sugerido o sacrifício da vaca. Seu Walter ofereceu-se para degolar a vaca, mas Jaqueline foi irredutível e não saiu de perto dela, para evitar que a matassem. O menino debochava do choro da mãe e o marido não entendia o porquê de tanto esforço para salvar um animal de pouco valor, como é uma vaca leiteira Jersey sem terneiro. “Quê, mãe? Tás chorando de novo? Mas é só uma vaca!”. Jaqueline retruca e corre com o guri dali. O marido intervém: “Deixa o guri, Jaqueline! É só uma vaca!”. Ela responde: “Pra mim não é! Sou eu que dou comida, ela conhece o meu cheiro! Eu não vou deixar matarem!”. O insolente do guri ainda solta um “Então vais comer carne artificial?”. Ela não comia carne para não ter que matar as galinhas.

4

machorra é a mãe
urbe
seu púbere úbere
farto de nadas
e o bendito fruto
de suas fodas mal dadas
tu

5

porque sou mulher
não tenho filhos

6

O pai começa a tocar a vaca e o terneirinho morto. Vê que este não está na posição certa para nascer. Percebe que já mexeram muito nele. Jaqueline mostra as mãos esfoladas e inchadas. Ela e eu, então, seguramos as patas da vaca para que esta não se desloque ao puxarem o terneiro. O pai tenta enlaçar o filhote por dentro da vaca, mas, ou as cordas são muito grossas, ou rebentam. Quando consegue puxar as mãos do terneiro, ele as decepa e coloca de novo o bichinho para dentro do útero, a fim de acomodá-lo para poder tirá-lo totalmente. Jaqueline chora: “pra quê cortarem o filhotinho!”.

Meu irmão grita para que eu não olhe, diz que vou desmaiar. Muitas vezes já havia desmaiado em partos de vaca; na cesárea, quando sai aquele cheiro quente de coisa viva de dentro da pança da vaca querendo não morrer, é difícil se segurar. Mas ali não, a barriga estava fechada, o filhote já estava morto.

Depois de muito tentar puxar o bichinho e não conseguir, então, o pai consegue achar a cabeça e puxá-lo pela nuca. Consegue enlaçá-lo inteiramente pelo pescoço. Meu irmão e o dono da propriedade puxam, mas sem forçar em demasia, para que o corpo não se despedace. Jaqueline e eu alargamos a vulva com as mãos, enquanto o pai acomoda o terneiro e ensaboa a vaca por dentro.

O corpo do terneiro sai. Em coro, nós duas dizemos “graças a deus”. O pai repete. Os outros se retiram.

7

Entre as tentativas de encontrar o melhor ângulo para retirar o terneiro, meu irmão, o guri e seu pai tentavam convencer Jaqueline de que a morte da vaca não seria uma grande perda: “não é a mesma coisa que perder um pai, um avô, que a gente lembra para o resto da vida, fica lá no cemitério”, “bicho é bicho”. Jefferson, o guri, repetia tudo o que o pai dizia, mas já afastado, pois havia sido corrido pela mãe.

Jaqueline repete: “pra mim não tem diferença! Os bichos estão tudo na volta. Eles sabem quando eu chego, me conhecem, sabem o meu cheiro. Sou eu que dou comida. Não tem diferença nenhuma!”. O pai tenta concordar sem afrontar os caras, dizendo que as pessoas desenvolvem valor de estima pelos animais.

Depois de feito o serviço, Jaqueline diz que, a partir de então, se ver touro perto da vaca, vai correr na hora! O filho debocha, pois a prenhez tinha sido por inseminação.

Nos lavamos com iodo e voltamos para perto das casas. Eu, meu irmão e o Jefferson esperamos do lado de fora da casa, enquanto o pai faz o receituário e recebe o pagamento. Escuto um pouco da conversa. O dono da vaca diz que foi por insistência da mulher que chamou ajuda médica; conta que ela chorou para sacrificarem uma leitoa que tinha fraturado uma pata.

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minha mãe não me viu nascer
parecia que tinham carneado uma vaca
o frio dos ferros entre as coxas
a sangueira pelo chão

escrevo poemas
inseminava

quero crer que as vacas gozavam naquele tempo
de massagem na vulva das vacas
pipetas, luvas, alguém de força que levante a cola e torça para frente

um lábio contra o outro
para cima e para baixo
para dentro e para fora
uma massagem na coluna
um dedo de cada lado de cada vértebra, aperta-se
força!

o couro é duro o lombo é magro
espuma
saindo quente mugidos disfarçados pelo focinho
o silenciar dos cascos
a hora certa de enfiar
um ferro frio até o útero

9

um touro
quando cobre uma vaca
ele tem uma peça
700 gramas entre 500 quilos

ele tem uma peça
pra encaixar
que nem sempre encaixa bem
são 499,3 kg e uma vida
quadrúpede

tem vaca que não arria
é o cio
mas muitas muitas muitas
se descaderam
desencaixam o eixo das ancas
estragam a carcaça
não prestam pra mais nada

é o cio
dos machos

é mais forte

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“Quando eu fui ganhar o Jefferson, eu não tive dilatação. Foi uma luta pra ele nascer. Eu quase morri”. Deitada sobre a vaca, Jaqueline desconfiava até do veterinário. O pai me conta depois que isso é comum de acontecer: “A Deise, lá da figueirinha, se torcia toda, quando eu fazia a injeção nos bichos parecia que era nela que eu estava fazendo”.

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Jaqueline ficou com a vaca, alimentando-a e dando água. Setenta por cento das chances de recuperação advém do cuidado em fortificá-la com alimento e medicação. Enquanto o marido contava a história da leitoa, Jaqueline reiterava sua proximidade com os bichos e ainda o desafiava dizendo que dias atrás, ele e o Vilmar não conseguiram matar uma vaca para carnear porque ficaram com pena. Jefferson completava: “deram três tiros e a vaca não morria!”.

Na volta para casa, o dono da propriedade fala das más condições da estrada e diz que só moram para fora porque gostam, que tem vontade às vezes de abandonar a vida no campo. Relata que o transporte escolar tem dificuldades para buscar seu filho, e que isso seria um forte motivo para voltarem para a cidade. Diz que o menino gosta muito de morar para fora: “não sei como saiu tão bagual. Hoje não queria me dar um abraço de dia dos pais porque eu não acordei ele às seis pra assistir o Galpão Crioulo!”. O guri, que ouve toda a conversa, completa a fala do pai dizendo que pelo menos deu para ver o Campo e Lavoura.

para-ler-escritoras-mariliaSobre a Autora

Marília Floôr Kosby é uma poeta gaúcha, nascida na cidade de Arroio Grande, extremíssimo sul do Brasil, em 1984. É autora dos livros de poemas Mugido [ou diário de uma doula] (2017), Os baobás do fim do mundo (2011), Siete colores eUm pote cheio de acasos (2013), e do ensaio “Nós cultuamos todas as doçuras”: as religiões de matriz africana e a tradição doceira de Pelotas (2015)  —  obra contemplada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 e com o Prêmio Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial IPHAN, 2015. Seus poemas estão em diversas revistas brasileiras de literatura e arte. É doutora em Antropologia Social, com formação complementar em futebol amador. Atua também como compositora, participando de festivais de música popular.

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Mugido(Garupa, 2017)
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