Para Ler Escritoras

# 16 • Uma peneira fina que retém só os nós do bordado, de Camila Gobbi

N

um poema antigo tinha um galo que com seu canto tecia os tons da manhã. Eu enxergava nitidamente a ave feita de linha brilhante, num céu prateado recém-nascido, gritando cores lindas em lances certeiros de fio em cabeça de agulha. Vinham os vermelhos, amarelos, laranjas, até mesmo os azuis vinham se entrelaçando até apertarem cegos os nós pra ser tudo um pano só, o pano do céu.

Se esse galo tecelão não canta o dia não se borda. Imagino que então seria só o escuro, a falta de luz e linhas guardadas em cestos. Se a gente de leve modelar uma letra se transmuta galo em gato, que eu adivinho seria o responsável por desfazer a costura do dia e trazer a noite. O felino chegaria ali pelas seis, sete da tarde, criatura noturna que é, e se espreguiçaria afiando as garras no pano do dia até quebrar-lhe as fibras num rasgo comprido.

Aprender a lidar com linhas não é fácil. A lição está em entender que pequenos sistemas precisam estar em harmonia para a construção de um grande sistema, o pequeno sistema é o ponto.

O ponto errado pode ser disfarçado temporariamente. Se for encoberto fica quase perfeito. Dá pra despistar os detalhes porque ninguém nunca vai saber melhor daquele ponto do que quem o fez. Mas vai ser a ervilha debaixo de cem colchões na melhor das hipóteses. Na pior delas vai gerar um desequilíbrio em cadeia mais difícil de ser desconsiderado.

Um exercício de paciência e aceitação a tecelagem, cada ponto torto merece atenção especial, você avalia o contexto e decide refazer ou abraçar o erro. Quando se acolhe o rejeitado ele perde carga negativa, faz parte a seu modo, não fica uma coisa clandestina.

Somos parte de uma rede de laços. Por mais fio solto que seja seu espírito, a gente sempre embola em alguém. Mas laço nem sempre mantém nó atado. Vale lembrar que laço é agradável, uma coisa civilizada, enfeitada, que funciona se não provocada. Mas normalmente basta um puxão leve pra desfazê-lo por completo.

Laço também pode ser perigoso, fita frouxa de cadarço serve só de armadilha. A gente tem laços de pontas soltas com as pessoas também, daqueles que a gente fez distraído e demora a entender o que foi que te atingiu quando dá de cara no chão.

Mas eu prefiro falar de nós.

Pra isso vou contar uma história:

* * *

Certa vez o maior especialista em nós do mundo, que vinha a ser um marinheiro que viajou por todos os mares, chegou num porto. Exibia suas habilidades prometendo a todos os pescadores da vila e interessados em geral que lhes ensinaria os mais complexos e impressionantes nós de corda. E o nó podia ser feito em cordões menores? Podia. E com panos? Absolutamente. Linhas pra fazer redes de pesca? Com certeza. Show vendido.

Executou sua melhor performance naquela tarde. Era vaidoso, tinha voz de trovão de tanto brigar com tempestade, exagerava nos movimentos, ressaltava a força que tinha nos braços contraindo bem os músculos. Era gracioso e preciso como um atleta. Ficaram todos muito satisfeitos, ele principalmente.

Na manhã seguinte antes de partir em nova aventura ficou sabendo que na noite anterior, com nós perfeitos, uma filha fugiu pela janela, um menino aprendeu a laçar os cadarços, duas mulheres amarraram um intruso que invadiu a casa, um homem enforcou-se no quintal e um grupo de pescadores fez a rede que pescou o almoço de todos na vila naquele dia.

Quando num outro porto, numa outra vila, quiseram que ele ensinasse seus famosos nós aos moradores, o marinheiro respirou fundo e disse que nó é uma coisa fatal demais pra se dominar de um dia pro outro. Mostrou os movimentos básicos e aconselhou que cada um descobrisse seu próprio nó, nó era coisa séria, pessoal. Têm amarrados que são irreversíveis, é melhor saber o que se está fazendo.

* * *

A gente tem casco frágil demais por isso inventa tantas proteções. A roupa, o carro, a casa. Se assumíssemos nossa natureza selvagem, primitiva, andaríamos nus no mato. Gerações até engrossar o casco, mas engrossa. O pé acostuma aos galhos, a pele ao sol, o cabelo a ser lavado só com água de rio. Mas atualmente somos finos feito papel. E quando gravemente feridos somos costurados a linha mesmo, ponto por ponto.

Mas somos mais complexos que papel. Artesanato mais intrincado do que o de costurar a manhã. O galo eventualmente, ao tentar tecer uma pessoa, embolaria o canto e perderia os fios que se reencontrariam depois do nó como se nada tivesse acontecido. É por isso. A gente passa a vida toda descobrindo as falhas, consertando ou aprendendo a amar os pontos defeituosos.

Tem gente toalhinha de quermesse, aparentemente uma perfeição branca e simétrica, mas nesses é triste e invisível a goma que os faz nunca serem diferentes. Pano engomado não relaxa. Tem gente que é a bagunça de um cesto de lã. É difícil. Quem nunca pensou em desistir na metade quando a cada movimento de soltura do nó ele ou outros pareciam que mais ainda se apertavam. É desesperador. Mas esse é o desafio, tem beleza e verdade em casa movimento livre da costura caótica.

As pessoas de fios embolados que eu conheço são peças únicas e mutáveis. Amontoados de fios atemporais, que quando entendem que em termos de tecelagem só se pode seguir em frente já se fundiram ao pano único que monta o universo.

para-ler-escritorasSobre a Autora

Camila Gobbi é formada em Letras, mas leciona música, o que lhe confere o título de domadora de crianças. Tem uma adega dentro de si, coleciona rolhas e tem por hábito atar e desatar nós. Tem três gatos: Tinto, Tango e Madrugada. Atualmente mora no Rio de Janeiro e vai aprender a andar de bicicleta, talvez.

Leia mais de Camila Gobbi

Escombros e outros pedaços de coisas no chão (Terceiro Selo, 2015)

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