Para Ler Escritoras

#18 • Em memória de Assionara Souza

Cecília não é um cachimbo,
um conto de Assionara Souza

O

cachimbo é um cigarro que já vem com cinzeiro.

E aqui temos três coisas: um cachimbo; um cigarro; um cinzeiro. Sendo que a primeira: o cachimbo, como se disse antes, pode reconhecer-se como uma junção da segunda: o cigarro; e da terceira: o cinzeiro.

Mas cigarro é só um nome que se dá a uma coisa: o cigarro. O que isso significa pode ser encontrado em outras coisas. No conhaque, por exemplo; ou até num poema. E o cigarro significa: “o que não é o que devia ser”.

Mesmo gritando, gemendo ou tocando uma valsa vienense “o que não é o que devia ser” jamais será. E Cecília sabe disso.

Sobre o cigarro, o passarinho disse: “o cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar”. Enquanto Vasko Popa, contando nos dedos de sua memória poética, enumerou elementos no cinzeiro: “o sangue de um batom barato amamenta(I) os corpos mortos das pontas de cigarro”, etc. antes e etc. depois.

Ainda assim, o que mais me impressiona, de fato, é ver o diabo sumindo na fumaça do cachimbo de Sá Maria!

Os dentes nenhum de Sá Maria sorriam enquanto o diabo sumia, sumia, sumia … até de todo sumir.

Sá Maria. Só Sá Maria é quem podia: com aquela perna torta de veneno de aranha; com sua dor de cabeça que fazia ela chorar; com aquelas rezas todas de menino se aquietar; só Sá sabia, só Sá podia. Aquietar a menino quando o diabo lhe sorria. O diabo era tudo o que ele não tinha e queria.

Xô, diabo!
Vá-s’imbora!
X’istopora!
Xa’o menino s’aquetá.
Tá em tempo’inda não,
d’ ele’ í desse lugá.

E o diabo ia sumindo até de todo sumir.

Mentira! Sá Maria já sabia que o menino ia engolindo cantos diabos surgissem. Empurrando para dentro da alma de ferro. Assim eles iam crescendo, até ficarem bem grande. E quando à noite também lhe desse vontade de se matar, ia acendendo os cigarros e espantando os diabos, até rompesse a manhã. Cada suspiro, um diabo a menos. Cada sarro decomposto, outro diabo no cinzeiro, morto e torto, feito um anjo desses que vivem na sombra.

Havia muitos diabos, porque a tarde era de chumbo, e formas pretas. Escute, escute! Está passando um anúncio no rádio. Luiza desapareceu! Não adianta chorar sob o leite derramado.

Quando chegasse a noite, ou às duas horas da tarde, o diabo inevitavelmente ia tocar o seu flautim e se divertir às custas do menino. Um dia ele vai embora! Mas ele nunca vai embora. O menino é quem vai embora de mãos pensas, avaliando o que perdera. Seguir seguindo a estrada pedregosa, onde as sementes caíram. No meio do caminho.

Essas coisas todas ficam impregnadas em Cecília. Embora não sejam vistas ou tocadas, a impressão existe. E a impressão é ferro, pele e dor. Signo-reflexo que converte tudo quanto recebe no próprio signo-imagem. Jogo de espelhos. Cecília já não sabe mais ver sem se misturar. Nem mais escuta ou toca ou verte sem estender a própria existência à coisa ouvida, tocada, sentida.

Se o objeto em que Cecília esbarra fosco, fosco, fosco, abrir-se coisalmente, … Ora!

– Cecília não é um cachimbo!

Se o cachimbo não existisse, mesmo havendo o cigarro, mesmo havendo o cinzeiro em que conter as cinzas do cigarro, mesmo havendo Cecília que fuma o cigarro e joga nele as cinzas enquanto chora e lamenta cada um daqueles diabos de desejos mortos por suas próprias mãos, mesmo assim, não haveria a menor possibilidade de confundir qualquer um desses seres: Cecília, cigarro, cinzeiro, com o que não existe.

Cecília poderia muito bem decidir que este seria seu último diabo morto. Mas Cecília não é um cachimbo. Não sabe pender as mãos e recusar a imagem majestosa e circunspecta da máquina aberta. Quando vê, nem era a máquina certa. Só o diabo estendendo-lhe mais um cigarro.

E Sá Maria não há mais.

Mesmo que Cecília não se chamasse Cecília, mas Marina ou lrlívia, isso não seria uma solução, pois o diabo é que Cecília sempre se comove.

Talvez quando o beijo deixar de ser a véspera do escarro, aí, sim, Cecília apague o seu último cigarro.

para-ler-escritoras-assionaraSobre a Autora

Assionara Souza era escritora. Nasceu em Caicó/RN, em 14/10/1969, viveu em Curitiba/PR desde os 11 anos de idade até os 49. Se formou em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, foi pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Foi autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) — contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro. Morreu em Curitiba/PR, em 21/05/2018.

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