Para Ler Escritoras

#19 • Trecho de Esperança para Voar, de Rutendo Tavengerwei

O

calor fervia sob os pés de Shamiso. Os dias estavam se desenrolando como a pele velha de uma cobra. Só fazia alguns dias desde que ela fora suspensa, mas parecia fazer um ano. Ela estava percebendo, envergonhada, que os desafios da vida no internato não eram nada comparados à realidade nua e crua de casa.

Ela estava na fila desde a manhã. Já era meio-dia. O estômago roncava em protesto. A comida estava em falta. Ela sabia que quase todas as pessoas ao seu redor estavam sofrendo da mesma situação. A fila se tornara um ponto em comum para todos: professores, advogados, jardineiros.

As coisas estavam tortas, tristemente às avessas. Há algumas semanas, as lojas estavam cheias de suprimentos. Parecia que Rhodesville tinha ficado presa em um pesadelo durante a noite, longe dos confortos normais dos subúrbios, com suas lojas cheias e pessoas em suas rotinas habituais. Há pouco tempo, o país era conhecido como a zona cerealista da África. Agora ele parecia estar enfrentando as consequências de uma doença mortal, que atingira o coração do país, deixando um rastro de caos.

Uma mulher gorda estava em frente, segurando um bebê que dormia. A criança estava deitada tranquilamente nos braços da mãe, completamente alheia ao que estava acontecendo no mundo. Shamiso invejou sua ignorância. Crescer era uma tarefa cansativa.

– Com licença, essa é a fila do pão, né? – ela perguntou à mulher. Para seu horror, a mulher deu de ombros. Shamiso estreitou os olhos. Como era possível que a mulher não soubesse por que estava em uma fila?

Mas, por outro lado, ela também não sabia. Shamiso imaginou o que estaria fazendo se estivesse na escola. Parte dela ansiava por estar entre os outros adolescentes, compartilhando o desespero do período de estudo, em vez de ficar em uma fila. Verificou o celular. Outra chamada perdida de Tanyaradzwa. Enfiou o celular no bolso, como se escondê-lo fosse eliminar o problema.

Ela não estava conseguindo responder a nenhuma das mensagens, nem atender as suas ligações. Quando o telefone mostrava que era Tanyaradzwa ligando, o ciclo recomeçava. A imagem do sangue escorrendo pelo nariz de Tanyaradzwa enquanto a mbira caía no chão; a lembrança do rosto machucado do pai naquela caixa forrada de seda…

A fila quase não se movera desde que ela se juntara a ela. De onde ela estava, tudo o que ela conseguia ver era um caminhão com as portas traseiras abertas, cheio de caixas. Um homem de macacão estava sentado lá dentro, tentando lidar com a multidão impaciente. Shamiso não entendia por que eles não vendiam o pão, ou o que quer que fosse.

O homem no caminhão parecia estar explicando que as caixas precisavam ser descarregadas primeiro, mas não estava claro por que ele não havia feito isso ainda. Shamiso não achava que parecia ter pão lá dentro.

Entrar em filas tornara-se uma aventura, as pessoas sem saber para que era a fila e os donos de lojas guardando segredos que eles não queriam revelar.

Um velho a algumas cabeças dela gritava para qualquer um que tentasse furar a fila.

– Você acha que eu não vou comer pão hoje? Tá brincando!
Ela fechou os olhos e expirou devagar. Ela precisava manter a calma. O pescoço coçava. O calor soprava ar quente em seu rosto. Eram coisas demais!

De repente, duas senhoras passaram por ela, apressadas. Elas olharam para trás e se aproximaram da mulher gorda, tomando cuidado para selecionar bem as informações que queriam compartilhar. Uma delas segurava um pacote embrulhado cuidadosamente em um jornal. Shamiso inclinou a cabeça lentamente, tentando lê-lo.

– Mai Thandi, estão vendendo açúcar aqui do lado – uma das senhoras sussurrou, olhando para Shamiso para se certificar de que ela não estava ouvindo nada.

Shamiso revirou os olhos. Quase não havia espaço entre elas, era óbvio que ela conseguia ouvir o que elas estavam dizendo.

– É açúcar, Mai Thandi – a outra senhora insistiu, os olhos brilhando só de imaginar.

– Mas eu já estou nessa fila – respondeu a mulher gorda, balançando o bebê, que dormia.

– O gerente me disse que eles vão anunciar logo mais. Se formos antes de se formar uma fila, a gente consegue alguns pacotes.

A mulher gorda hesitou. Shamiso sorriu. Açúcar era uma tentação quase proibida. Afinal, não fora um saco de açúcar que trouxera os colonizadores ao país?

– Você disse que tem açúcar? – perguntou outra pessoa.

As senhoras imediatamente seguiram para a loja ao lado. Em poucos segundos, uma comoção explodiu. A fila se desmontou quando a multidão se dispersou. O bebê da mulher gorda começou a chorar quando ela tentou entrar na frente da nova fila, insistindo que soubera antes de todos.

Shamiso ficou no meio desse caos. Os gritos desesperados da criança ecoavam em seus ouvidos.

A fila se transferiu para a loja ao lado. Apenas quatro pessoas ficaram à frente de Shamiso, incluindo o velho que gritava. Ela se aproximou da frente. Em pouco tempo, chegou. Ela observou o velho na frente dela puxar um maço de dinheiro, lambendo os lábios como se fosse devorar o pão imediatamente.

– Vou levar isso pra casa e minha mulher vai ver quem é o homem da casa! – ele sorriu, entregando o dinheiro para o caixa, que em troca lhe deu um pacote de batatas chips.

– Cadê o pão? – ele protestou.

– Sai da frente, velho! – gritou o caixa, enquanto o afastava. O velho saiu a contragosto, murmurando. Shamiso assistiu a essa conversa, perplexa. Ela olhou para a fila ao lado e os viu saindo da loja com pães.

– Eu queria um pão, por favor – disse.

O caixa olhou para ela preguiçosamente.

– Eu quero tirar férias nas Bahamas. Essa fila é pra batatas chips! Se não quiser, nós devolvemos o dinheiro.

Shamiso engoliu em seco. Ela pegou um pacote de batatas chips. Estava na fila há mais de uma hora, então é claro que ela levaria. Ela só teria ficado mais feliz se eles também tivessem pão!

para-ler-escritorasSobre a Autora

Rutendo Tavengerwei, jovem escritora africana, nasceu, cresceu e estudou no Zimbábue, onde morou até os dezoito anos. Continuou, então, seus estudos na África do Sul, na área de Direito na Universidade de Witwatersrand, onde recebeu o diploma de especialização em Direito Comercial Internacional. Na Suíça, completou um Mestrado no World Trade Institute, na Universidade de Berna. Atualmente, trabalha na Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Esperança para voar (Hope is our only wing) é seu primeiro livro de ficção publicado. O lançamento do livro ocorreu em maio de 2018, internacionalmente e no Brasil.

Leia o livro de Rutendo Tavengerwei

Esperança Para Voar (Kapulana, 2018)
Kapulana

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