Para Ler Escritoras

#20 • Para Antonio, um conto de Luciany Aparecida

S

ou Benta. Possuo um filhozinho de 41 anos. Aplico em minha cria meus métodos.

Ele era todo errado. Errado porque nasceu. Errado porque não teve pai. Errado porque demorou de me trazer a felicidade. Errava todos os dias. Castigado todos os dias.

Quando menor, abria seu olho até esbugalhar. Ele ficava muito engraçado. Queria que ele visse melhor a culpa da merda que era minha vida. Ele me tomou o tempo e por isso nunca pude gozar. Ele era o crime.

O Esférico – olhos de parede – gosta de tudo que eu faço, ele merece tudo que eu fiz. Ele gostava! Comecei a medicá-lo aos três, dava as pastilhas e ficava assistindo. Sono. Leseira. Embolo. Olhar manso, boca semi-aberta de galinha. Adorava ver ele assim.

A minha vida foi espera.

Minha vida é peso.

Eu sou queda.

Às vezes colocava o Zoiudo no canto da garagem e brincava de acelerar o carro e acender os faróis. O imbecil melava os pés e o chão. À noite, quando quase morria afogada por ondas gigantes, derramava pouco a pouco água gelada no Cara de Galinha.

O menino começou a me parecer um bicho quando vi aquele pinto se desenvolvendo. Certeira. Virei veterinária. Esperei o pênis ficar na idade do pai. Enche a boca de esperança. Amarrei os braços para a boa ventura e zás. Deixei ele ver tudo. Ele merecia, ele gostava. Ele queria. Limpei os lençóis, joguei o que pesava fora e parei de cair.

Trago o gozador sempre comigo, limpinho e seco. Pele sempre enrijecida, é só usar.

para-ler-escritorasSobre a Autora

Luciany Aparecida é autora do livro Contos Ordinários de Melancolia (Paralelo13S, 2017) que leva a assinatura estética da escritora inventada Ruth Ducaso. Em 2012 foi vencedora da Bolsa de Criação Literária Funarte/BN para a escrita do livro Florim (texto inédito). Artista residente do Instituto Sacatar (2015) e cofundadora e criadora de conteúdo textual no PANTIM Coletivo de trabalhos virtuais e impressos.

Leia mais de Luciany Aparecida

Para Antônio é um conto de Ruth Ducaso da sessão “Quem enfia o dedo se engana?” do livro Contos ordinários de melancolia (Paralelo13S, 2017), que pode ser encontrado no link.

CADASTRE O SEU EMAIL PARA RECEBER OUTROS TEXTOS DO PROJETO ♥

Deixe uma resposta