Para Ler Escritoras

#21 • O Futuro Parece Bom, um conto de Lesley Nneka Arimah

E

Ezinma se atrapalha com a chave na fechadura e não vê quem chega atrás dela: o seu pai ainda menino, quando ainda era doce, disputando o afeto da mãe. A avó de Ezinma – explorada até os ossos pelas mulheres cujas casas ela espanava, cujas roupas ela lavava, cujos filhos ela esfregava até ficarem limpos; explorada pelos ossos de um marido que queria muitos filhos e dos homens que ela acolhia para realizar este desejo – cuida do filho até os treze anos como se fosse uma enfermeira, e morre na sua cama com um suspiro longo e cansado.

A madrasta sente por ele o mesmo que sentiria por um cachorro de rua que aparecesse o bastante para que ela conhecesse a sua cara, mas que ela nunca deixaria entrar em casa. Eles dançam ao redor um do outro, o menino valsando para frente com desejo e a mulher fugindo em uma pirueta. Ela cresceu numa casa em que era a irmã mais velha de muitos e sabe como uma criança pode afogar os sonhos de uma mulher. O menino só vê as costas viradas, a rejeição, e o pai ignora tudo, cego pelo prazer de ser um homem velho com uma esposa jovem, ainda fresca entre as pernas. Essa ele não dividiria com ninguém. E quando o menino de quinze anos volta do mercado e encontra as suas coisas em duas sacolas plásticas nos degraus de entrada, nem bate na porta para saber o que tinha acontecido ou para perguntar para onde deveria ir. Em vez disso, fica com outros garotos sem mãe em uma construção abandonada onde suas duas melhores camisas são roubadas e ele aprende a sempre manter o dinheiro consigo. Pede dinheiro, vende entulhos, rouba – e essa terceira opção vem tão naturalmente para ele que se torna a sua saída. Ele começa com coisas pequenas, furtando pessoas desavisadas e surrupiando produtos de bancas mal vigiadas no mercado. Ele aprende a forçar fechaduras, fazer ligação direta em carros, aprimorar sua mão leve.

A guerra chega quando ele tem vinte e um anos, e, enquanto as pessoas protestam na rua gritando “Biafra! Biafra!”, ele começa a estocar produtos. Quando os produtos se tornam escassos, ele faz sua fortuna. Quando a comida se torna escassa, ele saqueia fazendas no meio da noite, que é como ele vai conhecer sua mulher, e é o motivo de Ezinma, atrapalhando-se com a chave na fechadura, não ver quem chega atrás dela: sua mãe aos vinte e dois anos, nunca bela, mas com a aparência saudável de alguém que nunca passou fome.

Sua mãe é uma garota audaciosa que pega mais do que lhe é oferecido. O ano é 1966, meses antes de tudo mudar, e ela está em uma festa de amigos dos seus pais, e lá há um homem com pele amarela como uma manga e mandíbula quadrada e corpo como o da estátua de Davi, e rico; as mulheres solteiras vestem suas armaduras (sorrisos encantadores, decotes robustos, personalidades convidativas) e vão à batalha. Quando ela sai vitoriosa, pensa que isso já era dela por direito.

A guerra chega quando eles já namoravam há quase um ano. O povo dela é leal à Biafra, e o povo dele pensa que Ojukwu é um tolo. Só a família dela comparece à festa de noivado. No dia seguinte ela passa pela casa dele e descobre que ele deixou o país.

A família dela logo é obrigada a fugir da cidade, logo é obrigada a trocar tudo que eles puderam carregar, logo é obrigada a mendigar, e pela primeira vez na vida, a comida se torna tão escassa que ela entra em fazendas à noite para roubar espigas de milho ainda não completamente maduras. Quando fervidas, elas ficam tão macias que ela as devora inteiras, não só os grãos. Numa noite ela encontra uma pequena fazenda escondida atrás de uma montanha e lá encontra um homem roubando os inhames que teriam sido dela. Não há como competir; ele está bem alimentado e forte, e mesmo que ela tentasse gritar só por despeito, ele conseguiria silenciá-la. Mas ele sinaliza para ela ficar quieta e lhe dá um inhame. E ela, sendo quem é, gesticula pedindo mais dois. Ele lhe entrega mais um e ela foge apressada. Na noite seguinte, ao retornar à fazenda, ele a está esperando. Ela senta ao lado dele e eles escutam os grilos e a respiração um do outro. Quando ele coloca o braço ao seu redor, ela se apoia nele e chora pela primeira vez desde a noite do seu noivado, há muitos meses. Quando ele coloca um inhame no seu colo, ela ri. E quando ele pega as suas mãos, ela pensa: eu valho três inhames.

Ela terá duas filhas. À primeira, dará o nome de Biafra, por despeito, como que para dizer: “Olha, Mãe, deposite suas esperanças em alguma outra coisa frágil”. E a segunda recebe o nome da sua mãe, que a essa altura já tinha morrido sem saber que a filha a perdoara por ter escolhido o lado perdedor e chamara sua filha mais nova de Ezinma, que se atrapalha com a chave na fechadura e não vê quem chega atrás dela: a sua irmã, que todos chamam de Bibi, porque era absurdo uma criança ter o nome de um país que nem existe.

Bibi, linda de um jeito que a mãe nunca fora. Bibi, teimosa como a mãe sempre fora. Elas brigavam desde que Bibi estava na barriga, pesando tanto no colo do útero da mãe que uma corridinha leve podia tê-la empurrado para fora. De cama, a mãe de Bibi tinha passado a ressenti-la, e queimava tanto de raiva que a criança deveria ter fervido dentro dela. E três anos depois, Ezinma, bonita, sim, mas daquele jeito controlável que não ofende ninguém. Ela é um fantasma de Bibi, mais pálida no tom da pele e na personalidade, mas doce de um jeito que a irmã só é quando quer alguma coisa. Bibi a detesta. Não, a Ezinma não pode brincar com os brinquedos da Bibi; não, a Ezinma não pode andar até a escola com a Bibi e suas amigas; não, a Ezinma não pode pegar um absorvente, ela que junte um monte de papel e lide com isso. Ezinma cresce ansiando pelo afeto da irmã.

Quando Bibi tem vinte e um anos e seus pais estão tendo dificuldades para pagar as taxas da universidade, ela conhece Godwin, de pele amarela e mandíbula quadrada como seu pai, e se apaixona. Ela se apaixona ainda mais quando a mãe lhe diz para manter-se afastada. E quando a mãe continua, dizendo, Você não sabe como é esse povo, eu sei, e Bibi responde, Você só está brava porque eu tenho um homem melhor que o seu, a mãe lhe dá um tapa e este é o fim daquela conversa. Ezinma serve como intermediária, um papel para o qual ela foi empurrada desde a juventude, e conta para Bibi todas as novidades da família, mesmo que a mãe tenha exigido que Ezinma corte contato com a irmã.

E Godwin é melhor provedor do que o pai de Bibi, que agora é um comerciante modesto. Ele aluga um apartamento para ela. Ele empresta um carro para ela. Ele a cega com uma constelação de presentes, coisas que ela nunca antes tivera, como dinheiro para gastar e orgasmos. Na única vez em que ela fala de casamento, ele vai embora e ela não consegue contatá-lo por doze dias. Doze dias que esvaziam a sua conta bancária; doze dias em que ela fica sentada no apartamento que está no nome dele, e dirige o carro também no nome dele, e se pergunta o que há de tão precioso neste nome que ele não quer lhe dar. E quando ele finalmente retorna e a encontra fazendo as malas e agarra os cabelos dela, puxando, gritando que até isso era dele, ela é atingida… pelos seus punhos, sim, mas também pela percepção de que talvez a sua mãe estivesse certa.

A reunião não é carinhosa. O olho direito da Bibi está tão inchado que quase nem se abre, a boca da mãe está pressionada e elas não se olham nem se falam. O pai, que nunca pôde suportar a tensão entre as duas, pois trazia de volta memórias de sua infância turbulenta, aperta o ombro de Bibi e vai embora, e é aquela pressão gentil que traz as lágrimas. Logo ela está soluçando e o rosto da mãe ainda é uma pedra, mas é um rosto molhado que ela vira para que ninguém possa ver. Ezinma leva Bibi até o banheiro, aquele que elas dividiram e disputaram desde que aprenderam a falar. Ela a faz sentar na tampa do vaso sanitário e começa a limpar ao redor dos ferimentos. Quando ela acaba, eles ainda estão horríveis. Quando Bibi se levanta para examinar o rosto, elas duas aparecem no espelho. Eu ainda estou horrível, diz Bibi. Sim, é verdade, responde Ezinma, e logo as duas estão rindo, e no reflexo do espelho elas percebem, pela primeira vez, que têm exatamente o mesmo sorriso. Como tinham demorado tanto para perceber isso? Nenhuma delas sabe. Bibi está preocupada com suas coisas, que ainda estão no apartamento. Ezinma fala para ela não se preocupar, ela vai buscá-las. Por que você ainda é legal comigo? Bibi pergunta. Hábito, diz Ezinma. Bibi pensa sobre isso por um tempo e diz algo que nunca tinha dito para a irmã. Obrigada.

E então Ezinma se atrapalha com a chave na fechadura e não vê quem chega atrás dela: Godwin, que cresceu sob a indulgência corrosiva do pai. Godwin, tão desacostumado a ouvir um “não” que a palavra o atinge como uma onda de ácido, dissolvendo a decência superficial de uma pessoa que sempre consegue o que quer. Godwin, que quebrou seu violoncelo quando descobriu que o irmão mais novo conseguia tocar melhor, e é assim que ele acabou ali, observando Ezinma – que se parece tanto com a irmã de costas – se atrapalhar com a chave estranha na fechadura do apartamento de Bibi e não ver quem chega atrás dela: Godwin com uma arma, e o tiro que ele dá em suas costas.

para-ler-escritorasSobre a Autora

Lesley Nneka Arimah nasceu no Reino Unido, cresceu na Nigéria e atualmente mora nos EUA. O que acontece quando um homem cai do céu (What it means when a man falls from the sky) é seu primeiro livro, uma coletânea de contos lançada em 2017 nos EUA, no Reino Unido e na Nigéria. A obra foi elogiada por jornais e revistas internacionais, como The Guardian, The Washington Post, The New York Times e Publishers Weekly. Arimah venceu o Kirkus Reviews Prize 2017 na categoria Ficção, e a obra foi finalista do Leonard Prize da National Book Critics Circle, e do Aspen Words Literary Prize. O livro, traduzido por Carolina Kuhn Facchin, será lançado em julho no Brasil, pela Editora Kapulana.

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