Para Ler Escritoras

#22 • seis poemas inéditos de estaca zero & outros desvios de percurso, de marina rima

(…)

ninguém ama o que ama
por motivo à toa,
existe sempre uma qualquer coisa
mais ou menos translúcida
pra quem vê
mais ou menos atrás da cortina
pra quem não vê
*
está aí o amor
também com outros nomes
e outras coisas que chamam amor,
que podem ser só passatempos,
receios de ir adiante
ou modos de ferir a si mesmo
*

 

noite

o quadro não pintado da lua
é só um devaneio
um desejo sem foco, perdido
no arcabouço dos desejos
porque está aqui a lua
e ilumina
durma, Carlos
deixe que a manhã avance
e o brilho se apague,
a noite cheia de desejos
é só uma armadilha
para roubar-lhe os olhos

 

mira

no me llame capitu ni nadie
me llama por mi nombre
dime de mis ojos
dime todo por ahí
sin palavras, sin ninguna palavra
mira,
estos ojos de mujer
estos ojos de crianza
llama y deja que se quede
en miradas de espacio
de desconexión
dime, mirame, llamame
pero sin sonido ninguno
dejame verte, y
olvidarte otra vez

 

selvagem

mulher
te olhar, em fera
te ver em
fúria
na ânsia de dobrar-te toda
e sair feito papel-dobradura
cheio de vincos, riscos, cicatrizes
mulher
não há desejo ou manha
tu estás em chamas
e se consome toda
em si

 

nenhum poema
preenche esse vazio

nenhum verso é capaz
do alto da torre, na clausura, vê-se

não há poema que preencha esse cansaço
não há poema para contar estória
não sobrou poema nessa estante
do buraco da fechadura, o mundo lá fora
é só poeira de poesia

é a bala arremessada ao céu
ou um rojão que queima pela metade

 

sufix-

o -ar
que me falta
em alguns verbos
pra
inalo
-ar
o -ar
que complementa
a nada dócil tarefa de -amo
sufoco de um sufixo
que define nossas primariedades
nossa língua extensa e densa
cheia de pequenas partículas
de sons e ares,
um -ar a mais e um -ar que faz falta
pra vocalizvir-
de avesso e finc- bandeira
perder o –
ficar sem –
cal-

 

Os poemas de estaca zero & outros desvios de percurso têm em comum um estado primário, que pode ser germinal, mas que pode ser fruto de uma infinidade de tentativas-erros (como bem sabemos que é).

para-ler-escritoras-marinaSobre a Autora

Marina Rima é poeta, revisora e faz pesquisas no universo da poesia concreta e contemporânea relacionadas à arte de fazer livros. Antes mesmo de ir à escola, sua mãe a sentava rente à máquina de costura para ler poemas de Bandeira e Drummond. Seu avô, poeta de quadrinhas, foi quem lhe ensinou a ‘adivinhar passarinhos’ e a trovar versinhos. Para ela, a poesia é a melhor via para (des)cobrir a língua, a de cultura e a nossa própria. Seu primeiro livro, Vênus partida ao meio, foi lançado em 2017 pela Editora Patuá. O segundo, estaca zero & outros desvios de percurso, será lançado ainda em 2018.

Leia mais de Marina Rima

Vênus partida ao meio (2017)
Editora Patuá

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