Para Ler Escritoras

#24 • Um poema de Karina Rabinovitz

poema didático meio óbvio de uma mulher cansada sobre um homem que deve estar cansado

um homem nasce de uma mulher
um homem escreveu que uma mulher nasceu de sua costela
um homem escreveu que deus teve somente um filho homem
um homem escreveu que o único filho de deus foi seduzido por uma mulher
um homem escreveu que a mulher que seduziu o único filho de deus era uma prostituta
um homem sempre sonha com uma prostituta
um homem queimou umas mulheres em fogueiras que ardem pra sempre no seio das famílias felizes

um homem não é um príncipe
um homem não é um príncipe

um homem é obrigado a se apresentar ao exército aos 18. o exército, dizem, tem a função de proteger a nação
um homem acredita que, a partir dos 18, tem a função de proteger a nação
um homem a partir dos 18 e mesmo antes, acredita sobretudo, em seu pau
um homem acha que seu pau tem a função de proteger a nação
um homem não aprende a arrumar uma casa ou fazer comida
um homem não aprende a cuidar de um bebê
um homem não aprende a proteger ninguém
um homem é obrigado a se apresentar ao exército aos 18

um homem não é um príncipe
um homem não é um príncipe

um homem deve trazer dinheiro pra casa. o dinheiro, dizem, um dos maiores poderes do mundo
um homem acredita ser um dos donos de um dos maiores poderes do mundo
um homem sai de casa, pela manhã, em busca de poder e volta à noite, faminto
um homem quer uma mulher cheirosa, quando volta pra casa à noite
um homem quer um jantar gostoso, quando volta pra casa à noite
um homem não pode ser incomodado por crianças
um homem que traz dinheiro pra casa e mesmo que não, dá murro nas costas de uma mulher
um homem que traz dinheiro pra casa e mesmo que não, dá tapa na cara de uma mulher
um homem que traz dinheiro pra casa e mesmo que não, ameaça com uma faca, uma mulher
um homem que traz dinheiro pra casa e mesmo que não, empurra os seios de uma mulher
um homem que traz dinheiro pra casa e mesmo que não, enfia seu pau à força no cu e na boceta de uma mulher
um homem não pode ser incomodado por crianças
um homem quer um jantar cheiroso
um homem quer uma mulher gostosa
um homem não é um príncipe
um homem não é um príncipe
um homem quando é proprietário de um carro que ele mesmo dirige e lava, é mais homem
um homem quando dança solto, é menos homem
um homem quando grita bem grosso e arrota, é mais homem
um homem quando carrega umas flores, mesmo envergonhado, é menos homem
um homem quando assiste programa de luta na televisão do bar, é mais homem
um homem quando faz muita gentileza pra mulheres e, especialmente pra homens, é menos homem
um homem quando é proprietário de um carro que ele mesmo dirige e lava, é mais homem

um homem não é um príncipe
um homem não é um príncipe

um homem quando beija outro homem, é estranho, mulherzinha, suspeito
um homem quando beija uma mulher à força, é viril, macho de verdade, glorioso
um homem proíbe uma mulher de ficar num ambiente só com homens
um homem vê perigo pra uma mulher, num outro homem
um homem conhece um homem
um homem não conhece uma mulher
um homem quando beija outro homem, é menos homem

um homem não é um príncipe
um homem não é um príncipe

um homem se entristece
um homem se tensiona
um homem se embrutece
um homem perde a ternura
um homem se cansa
um homem se embriaga
um homem se mata e mata
sua mulher

um homem nasce e renasce de uma mulher

Sobre a Autora

Karina Rabinovitz é poeta. Nasceu em Salvador, em 1977. Experimenta e realiza interações entre poesia, artes visuais e som, em parceria com a artista Silvana Rezende, criando livros-objetos, exposições de arte, instalações audiovisuais e intervenções poéticas e urbanas. Tem 5 livros de poemas publicados e 1 infantil. “mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!” (2014); “O LIVRO de água” (livro-objeto com poemas escritos à mão e fotografados, 2013); “poesinha pra caixinha [de fósforo]” (livro-objeto artesanal, feito à mão, 2012); “livro do quase invisível” (2010) e “de tardinha meio azul” (2005). O infantil é “Pela bahilha afora eu vou bem sozinha” (2014). O LIVRO de água se expande numa exposição de arte, realizada no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 2013 e no Centro Cultural BNB-Cariri/Ceará, em 2014. Juntas, Karina e Silvana criam intervenções urbanas como o “poesia atravessada [na garganta da cidade]” – poemas em faixas de pedestres; o “poesia: intimidade pública ou poemas toylete” – adesivos com trechos de poemas em banheiros públicos; “lambe-lambe poesia”, instalação audiovisual – objeto poético, pra ser montado em praças públicas; entre outras.

CADASTRE O SEU EMAIL PARA RECEBER OUTROS TEXTOS DO PROJETO ♥

Deixe uma resposta