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#25 • Com armas sonolentas, romance de Carola Saavedra

S

empre lhe pareceu que havia uma dissonância entre o que desejava e o que realmente queria. Como se todo desejo viesse encoberto por uma espessa camada de autoengano, um inevitável mal‑entendido. E satisfazer suas vontades ou vê‑las satisfeitas nada mais era do que o prenúncio de uma queda, cada vez mais célere, cada vez mais íngreme. E assim, a cada sucesso, uma fagulha de infelicidade se imiscuía, lenta e imperceptível. Não que não intuísse que algo ia mal, porque no fundo ela soube desde o início. Desde que colocou os pés naquele lugar.

Era novembro. No aeroporto, apenas a correria e o cansaço das últimas semanas, malas, preparativos, ataques de ansiedade, documentos em cima da hora, despedidas, uma festa surpresa organizada por alguns amigos, felizes ou invejosos do seu destino. Logo ela, que nunca tinha saído do Brasil. Logo ela, que nem famosa era. É verdade que havia feito uma ponta num filme premiado, era a sua maior façanha, um crítico importante elogiara sua beleza incomum e a pungência da sua atuação, profetizando um futuro brilhante pela frente. Ela sublinhara as palavras do crítico e andava com o recorte na bolsa desde então, como um sortilégio, um pé de coelho que lhe dava esperanças de maiores conquistas depois de um dia a dia de muito trabalho e poucos êxitos, o emprego de vendedora numa loja em Ipanema, e, quando tinha sorte, uma ou outra ponta em alguma peça de baixo orçamento ou a participação num comercial. Tirou a sorte grande, diziam ao saber de seu novo destino, um verdadeiro conto de fadas, não diferindo muito do que ela própria imaginava.

No aeroporto, o torpor da calefação lhe oferecia uma falsa sensação de acolhimento, somada ao vaivém de pessoas das mais diversas procedências, que suscitava um ambiente de cosmopolitismo e modernidade. Começava uma nova fase da sua vida, tudo vai dar certo, ela dizia para si mesma tentando se acalmar. Ao seu lado, Heiner, os olhos profundamente azuis de Heiner, o porte atlético, o cabelo louro e liso de Heiner, a pele branca coberta por uma imperceptível penugem dourada, imaginava‑se ao lado de um deus nórdico, Heiner, um deus, como pôde ser tão ridícula, se perguntaria muitas vezes nos anos que se seguiriam, mas naquela época ela era muito jovem e ainda não havia aprendido a ver por trás dos traiçoeiros ornamentos de um homem. Haviam se conhecido não fazia nem dois meses, numa festa promovida pela organização do festival, o festival de cinema que todos os anos oferecia aos olhos de uma pequena multidão apinhada em frente ao Copacabana Palace o desfile de meia dúzia de atrizes, atores e diretores internacionais que chegavam, deslizando sobre um volúvel tapete vermelho rumo ao salão principal, onde alguns poucos escolhidos tinham a honra de usufruir desse mesmo espaço, na esperança de travar algum tipo de conversação e poder, até o fim dos seus dias, para seus futuros filhos e netos, reproduzir em detalhes e com certa liberdade poética o momento mágico desse encontro.

O evento seria na sexta à noite, faltavam exatamente dois dias, cinco horas e quinze minutos e ela ainda não tinha um convite, você tem que frequentar essas festas, diziam todos, sem isso sua carreira não deslancha, ela se angustiava. Já passara a agenda de telefones de cima a baixo e ninguém capaz de lhe oferecer ao menos alguma esperança. É uma festa concorridíssima, dissera Luan, seu amigo e agente, na realidade, mais amigo do que agente, vai ser difícil, só atrizes de prestígio, algumas modelos top, e ela por acaso era o quê?, havia feito o curso profissionalizante mais concorrido da época, tinha sido elogiada por um dos maiores críticos do país, o que mais ele queria?, e pensando bem ele nunca conseguira nada de concreto para ela, e tal agenciamento até então só lhe servira para abrir mão de vinte por cento dos minguados cachês que recebia. Já estava decidido, se ele não conseguisse aquele ingresso, ela daria um fim definitivo àquela exploração. Anna, querida, você sabe que para mim você é a grande promessa do cinema brasileiro, do cinema, da tv e do teatro, a próxima Cacilda Becker, não tenho dúvidas disso, mas você também sabe como é, um monte de invejosos dispostos a qualquer coisa, e, infelizmente, pessoas éticas e talentosas como você acabam perdendo espaço. Mas não se preocupe, vou falar com a Adriana, amiga minha da organização, ela me deu certeza de que, se sobrasse alguma entrada, seria nossa. Nossa?, estava cada vez mais claro que Luan não tinha a menor intenção de ajudá‑la, sua, claro que sua, você sabe o quanto eu te amo, você é a minha irmãzinha e tudo o que é meu é seu, ela queria despedi‑lo naquele mesmo instante, mas respirou fundo, não era bom tomar decisões precipitadas, e agora tinha assuntos muito mais urgentes para resolver, temos que saber escolher nossas batalhas, havia lido recentemente num livro do qual já não lembrava o título, mas ficara a frase, saber escolher nossas batalhas, é o que faria, mesmo que não soubesse muito bem qual era. Desligou o telefone pensando na necessidade urgente de um plano B, ou ficaria para sempre naquele limbo do que poderia ter sido. Não interessava como, mas daria um jeito de entrar naquela festa, pensou, e logo teve a ideia, colocaria seu melhor vestido, melhor, pegaria algo emprestado na loja onde trabalhava, afinal, quantas vezes não emprestam vestidos e joias às atrizes para que elas associem à marca seu charme e carisma numa festa ou evento badalado, era perfeitamente o seu caso, e a gerente nem precisaria saber, devolveria na segunda sem falta. E chegando lá, produzida como as melhores atrizes, daria um jeito de entrar.

Decidiu‑se pelo longo vermelho‑sangue, tomara que caia, com uma fenda revelando a perna direita até o alto da coxa, mais importante do que o que se exibe é o que se dá a entrever, pensou, enquanto se olhava no espelho. Calçou um salto altíssimo, também emprestado, de que serviria um vestido incrível com sapatos velhos?, se a noite fosse longa, mal se aguentaria em pé, mas isso era o de menos, se a noite fosse longa, nem se lembraria daquele detalhe. Prendeu os cabelos, lisos, mas que ondulara com a ajuda de um babyliss, num coque arrumado com estudada displicência. Brincos imitando prata, os mais apresentáveis que tinha. Diante do espelho, os olhos marcados com rímel e delineador, os lábios muito pálidos, se você realça um ponto deve apagar o outro, e o espelho parecia confirmar a eficácia daquela lei. Finalizou o penteado com um antigo pente de osso que dona Clotilde lhe dera pouco antes do rompimento, a briga que a levara a sair daquela casa para sempre, se tivesse um mínimo de inteligência, teria aguentado todos aqueles desmandos e humilhações, mas agora era tarde, se olhou uma última vez no espelho e chamou o táxi. Enquanto pudesse pagar um táxi ainda havia esperanças.

O carro a deixou em frente ao Copacabana Palace. Foi tomada por uma vaga melancolia ao descer daquele carrinho amarelo, o estofado gasto e imundo, um dos seguranças se aproximou solícito, ajudando‑a a desembarcar com o vestido justo e os sapatos altíssimos, ela sorriu, você é uma atriz, disse para si mesma, Anna Marianni, repetiu o pseudônimo que adotara por sugestão de Luan, e com o qual se identificava muito mais do que com o seu próprio nome, sim, Anna Marianni era ela, uma grande atriz, e agora você vai encarnar o papel da grande diva e vai se comportar como tal, ela repetia para si mesma enquanto se dirigia nervosa ao saguão. Ali, um funcionário do festival fatalmente lhe exigiria o convite que ela não tinha. Meu convite está com a Adriana, ela disse, era só pedir para chamá‑la, o homem a olhou com um misto de preguiça e mau humor, a Adriana ainda não chegou, então vou esperar aqui por enquanto, e postou‑se estrategicamente não muito perto, a ponto de perturbar, mas também não muito longe, a ponto de não ser notada. Passaram por ela várias atrizes famosas, algumas se vestiam com estudada displicência, a elegância algo natural, bastando não prestar muita atenção ao espelho antes de sair de casa. Outras, a maioria, pareciam com suas próprias fotos nas revistas de celebridades, lindas, deslumbrantes, inatingíveis. Ao comparar‑se com elas, sentia‑se pobre, de uma pobreza que a corroía por dentro, odiava aquilo, a sensação que a acompanhava desde sempre. Sabia que, a seu favor, tinha a juventude e uma beleza única, todos diziam, uma beleza única, e ela se acostumara a se ver assim, embora nunca tivesse entendido muito bem o que aquilo significava, talvez que não era como as outras, que havia nela algo especial, ou talvez fosse apenas uma forma de dizer que não era tão bonita assim.

A espera se alongava mais do que o imaginado, ela ali na frente e ninguém, nada que significasse nem ao menos a menção de um convite. Já pedira várias vezes para falar com a Adriana, e todas as vezes a resposta de que ela ainda não havia chegado, até que a Adriana chegou. Luan disse que você tinha o meu convite, ela tentou ser o mais íntima possível, Adriana, sem nem se dar ao trabalho de lhe dirigir um olhar, querida, eu avisei ao Luan que não tinha mais convites, dá licença, aquele jeito acavalado, ela mordia com força os lábios enquanto a Adriana já ia longe. Calculou quanto tempo ainda teria antes de cair em desgraça e ser convidada a se retirar pelo segurança, a maioria dos convidados já havia entrado, talvez cinco, no máximo dez minutos. Foi quando Heiner apareceu.

Alto, muito alto. Loiro. Muito loiro. Foi a primeira coisa que pensou. Depois, que era uma das estrelas do festival. Havia visto uma foto dele no catálogo da programação. Passou mentalmente tudo o que conseguia lembrar sobre ele: diretor alemão, um filme de sucesso, grande prestígio, uma das promessas da nova geração. Devia ter uns trinta, trinta e poucos anos. Casado, não conseguia se lembrar se era casado. Filhos, não lera nada sobre isso. Mas lera num artigo, um longo artigo na primeira página do caderno de cultura, um dos grandes nomes do novo cinema alemão está revolucionando a linguagem, algo assim, Heiner Neumann, era esse o nome. E, assim que os olhares dos dois se cruzaram, algo a impulsionou, e, na mais improvável das atitudes, ela caminhou em sua direção estendendo‑lhe a mão, Heiner!, feito velhos conhecidos, ele por um segundo retrocedeu espantado, mas logo se desvencilhou dos jornalistas, assessores, aspirantes de plantão e foi na direção dela, ela continuou sorrindo, Heiner!, mal reconhecia a própria voz, que lhe pareceu mais aguda do que o normal, ele pegou a sua mão. Ela achou estranho, quase ridículo, tudo aquilo parecia um sonho, ou uma encenação. Então, Heiner Neumann aproximou os lábios do dorso da sua mão, não foi propriamente um beijo, mais uma pantomima, pois o fingimento do beijo era mais importante que o beijo em si, murmurou algo, encantado, deve ter sido, e entraram juntos na festa.

Heiner estava encantado em conhecê‑la, foi o que ele disse, numa algaravia que misturava espanhol, português e um pouco de francês. Anna também respondeu com sinceridade, ela também estava encantada, talvez fosse a iluminação, a tensão dos últimos acontecimentos, o fato é que via mas não via o rosto de Heiner, as marcas na pele, os olhos pequenos e opacos, os lábios muito finos, que o deixavam quase sem boca, ou apenas com uma imperceptível linha demarcando o lado de dentro e o lado de fora. Um homem feio, diriam muitos. Um rosto marcante, diriam outros. Mas naquele instante ela não prestou atenção em nada disso, Anna só pensou no festejado cineasta que a olhava cheio de desejo e curiosidade. Se apaixonaram ali, naquele primeiro olhar, é a versão que ela costumava contar e, a partir de certo ponto, a única versão possível, o que mais explicaria aquele encontro? Anna bebeu uma série de coquetéis coloridos, azul, rosa, indistinguíveis linhas amarelas e roxas, seus pensamentos flutuavam, leves, no ritmo da música. Havia muito tempo não se sentia tão feliz.

Antes mesmo de a festa acabar, Heiner pediu a um assessor que os tirasse dali, queria caminhar na praia, andaram algum tempo pela noite da praia de Copacabana, ela pensando se não seriam assaltados a qualquer minuto, ele falando despreocupadamente, interessado em tudo que dissesse respeito ao Brasil, cinema, comida, política, cultos de umbanda, de candomblé, depois falou do filme que sonhava em fazer, algum dia, se convencesse alguém a lhe dar o dinheiro, seu projeto mais pessoal, uma ruptura com o próprio cinema, um filme sem enredo, sem personagens, sem atores, sem autor, sem autor?, ela perguntou com curiosidade, é, um filme que se faz a si mesmo, cenas filmadas aleatoriamente, depois a montagem, também alea­tória, feita por computador, uma obra feita pelo acaso, ela estranhou, mas ele logo mudou de assunto, e você?, ela contou que era atriz, falou da peça premiada, dos elogios que a crítica lhe fizera, tentou parecer o mais modesta possível, mas, ao mesmo tempo, que ele percebesse quem ela realmente era, alguém com perspectivas, com um futuro brilhante, havia dito o crítico. Ele se mostrou surpreso e entusiasmado, estava mesmo procurando uma atriz para o seu próximo filme, aquele sem atores?, ela perguntou espantada, ele riu, não, esse é só um projeto, falo do meu próximo filme mesmo, já está em fase de produção, a história se passa no Brasil, é sobre uma jovem alemã que vem ao Brasil em busca das suas raízes, acaba se envolvendo com um lutador de capoeira e fazendo com ele uma viagem pela Floresta Amazônica, seria incrível se ela se dispusesse a fazer o teste, não é de protagonista, mas é um ótimo papel, o mais interessante, segundo Heiner. Anna sentia o futuro tomar corpo, claro, claro que faria o teste.

Caminhavam na beira da água, e, por mais que ela erguesse o vestido, vez ou outra as ondas molhavam a barra da saia, pensou que não poderia devolvê‑lo à loja naquele estado, mas logo em seguida vinha um novo pensamento, ao qual ainda estava se acostumando, agora nada, nada mais tinha nenhuma importância. A existência de Heiner a transformara, a atenção que ele lhe dava. O céu já exibia os primeiros indícios do dia quando voltaram para o hotel. Atravessaram o saguão e se dirigiram aos elevadores, o assessor o esperava no caminho, se precisava de mais alguma coisa, se isso, se aquilo, Heiner o dispensou com um sorriso e um discreto aceno. Ela se olhou no espelho que os rodeava, ela e o grande diretor, os pés cheios de areia grudando nos sapatos de salto altíssimo, sentia‑se linda, mais linda do que nunca, os pensamentos acarinhados pelo álcool.

Quando saiu, por volta do meio‑dia, tudo havia mudado. Sob a luz do sol forte o vestido já não parecia tão bonito, a bainha ainda úmida de mar, além disso ela vislumbrava algumas pequenas manchas de bebida ou de gordura, o tecido amarrotado, já não tinha o tom carmim da noite anterior. E até os sapatos, desconfortáveis, como se tivessem encolhido. Voltara à vida normal, pensou, enquanto esperava que o porteiro chamasse um táxi. Heiner tinha uma série de entrevistas, mas voltariam a se encontrar no final da tarde, onde?, ela perguntara tentando parecer desinteressada, se é que isso era possível àquela altura. De dia, Heiner era ainda mais feio que à noite, o topete que ele usava na tentativa de esconder as entradas laterais o deixava com uma expressão desfavorecida. O sexo fora decepcionante, ele estrebuchara por alguns minutos e depois caíra, esvaído, em cima dela, mas sexo sempre decepciona num primeiro encontro, Anna se conformou, ele devia estar nervoso, os dois estavam, mas depois, com a mansidão que o tempo dá, ele iria, pouco a pouco, se adaptando ao corpo dela, aos seus rumores e idiossincrasias. Tinha certeza.

Combinaram de se encontrar às nove da noite no bar do hotel. Anna passou o dia entre um desmesurado entusiasmo e o medo de que ele sumisse. Tão fácil desaparecer. E se até o mais insignificante dos homens fazia isso, que dirá alguém famoso como Heiner. Quantas mulheres devia conhecer todas as noites? Para quantas já não prometera papéis incríveis em um novo filme? Luan ligara o dia inteiro, devia estar louco para saber as novidades, todos comentavam da atriz brasileira Anna Marianni, claro, porque agora ela era atriz, por quem Heiner Neumann havia se encantado, Luan, ele que não ajudara em nada, pois agora que ficasse ali, deixando mensagens espirituosas na secretária e dando entrevistas para as revistas de fofocas. Que aproveitasse os seus quinze minutos de fama.

Sobre a Autora

Carola Saavedra é autora dos romances Toda terça (Companhia das Letras, 2007), Flores azuis (Companhia das Letras, 2008; eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), Paisagem com dromedário (Companhia das Letras, 2010, Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), O inventário das coisas ausentes (2014) e Com armas sonolentas (2018). Seus livros foram traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

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