Para Ler Escritoras

#26 • Aleppo, um poema de Maya Falks

I

Havia sim um elo entre todos
Que não fossem de raça, credo ou origem
Respiravam o mesmo ar pesado de morte
Respiravam na dança macabra da fuligem
Sob botinas de couro e borracha o chão parecia de nuvem
Fumaça para todos os lados entre corpos marcados, anjos perdidos
Povos sem lar, sem rumo e sem norte
Dos restos da casa, o homem fardado fazia a guarda
Boneca de pano no canto dos móveis marcados, quebrados, perdidos
Um dia ali dentro crianças brincavam de polícia e bandido
Os tempos mudaram, não havia inocência ou vida talvez
Um som estremece a cidade, os sobreviventes entendem que começou tudo outra vez
Um quadro mal pendurado revela a família que um dia foi feliz
Agora, despedaçada, mantém em seu seio quem escapou por um triz
Nas ruas resta o concreto estraçalhado e o pó que subiu
Das bombas que ali atingiram, a beleza e a vida, o tudo sumiu
Na praça central da cidade cachorros vadios não existem mais
A vida, o sopro e a brisa, a paz e o futuro ficaram pra trás
Nas ruas, ruínas e gente sem esperança
Nas casas espalhavam-se corpos, velhos, adultos e crianças
O som que se escuta na trégua é o silêncio quebrado pelo choro baixinho
Carregado de dor e descaso, de morte e abandono, sem paz, sem carinho.
A bela cidade florida deu lugar ao inferno sem nem avisar
Famílias inteiras em trapos, tentando fugir pra outro lugar
Em barcos de ar e esperança encontram a morte nas margens do mar.

II

– Vês? Nada resta!
Chora a menina, olhando na fresta
Vestido de bolinhas rasgado nas mangas

Dois passos pra fora, vem a escuridão
Um soldado armado caminha ileso
Sem um arranhão

Do lado de dentro não há nem telhado
Se ainda houvesse chuva, tudo estaria molhado
Mas até a chuva se refugiou em outras bandas

O prédio é ruína, nem lembra o passado
A praça perdida fica lá do outro lado
Não há mais crianças pra brincar de castelo de areia

Celebra um homem com um bote inflável de contrabando
Exibe o peito aberto, caminha mancando
Seu rosto encontra o chão antes do corpo encontrar a porta

No lugar das pipas, os meninos contam mísseis
Eles sabem que a queda encerra dias difíceis
Já não há mais vagas no cemitério

À noite, cansada, a criança não conta mais carneirinhos
Conta estouros, bombas, barulhos de bala
E dorme sem saber se vai acordar outra vez

Um estampido à curta distância e o pai corre pro berço
A criança ainda respira, sem marcas ou feridas
Ajoelhado, ele fala baixinho – eu agradeço

Ela levanta os bracinhos pra se render
Nem sabe bem o que significa
Mas sabe que ainda pode morrer

III

Já houve tempo de paz, há muito esquecida
Pessoas como eu e você, vagando em ruas em ruínas
Sua vida, sua história, perspectiva perdida
Um corte na alma, o corpo exibe a ferida

Já houve, no passado, alegria e progresso
Do futuro brilhante, restou o regresso
À selvageria, ao ódio e ao caos
Em tempos de guerra, o ódio é réu confesso

O barulho das bombas interrompe o silêncio
Da terra arrasada desprovida de sorte
Nas ruas, ruínas não contam histórias
Nas manchas de sangue, um rastro de morte

Passado é o tempo de um dia feliz
Crianças cresciam em paz e união
Na guerra o ódio não se contradiz
Nas ruas e esquinas a marca profunda da destruição

No campo de guerra não tem aliado
Tem homens buscando alimento e proteção
Família escondida, futuro dilacerado
A vida e a esperança sem rumo caindo ao chão

Os canteiros floridos dão lugar aos cartuchos de balas
As escolas tomadas de poeira e vazio
Não há mais ensino nas salas de aulas
Acordam sabendo que a vida está por um fio

IV

Um dia, quem sabe, tudo volta ao normal
Terá se passado uma era talvez
A vida findada tal qual vendaval
O barulho da bomba revela tudo outra vez
A esperança veste luto onde um dia foi vida
Vida? Não restam mais dúvidas da história perdida!
Logram vitória como se fosse possível
O sangue escorrido do povo invisível
Família, o que sobra, vira refugiada
Em terra estranha porque a sua foi arrasada

V

Bum
O zumbido no ouvido deixa marca profunda
Bum
A mãe pega o filho e se esconde no quarto
Bum
A parede desaba com um novo impacto
Bum
Entre tijolos encontram a mão da criança
Bum
Não nascem mais flores em nenhum jardim
Bum
A vida, entre balas, chegou ao fim

VI

Era eu apenas uma garotinha
Cabelos ao vento, vestido de bolinha
Nas ruas da cidade, traçava meu trajeto
Da escola à minha casa não era traço reto
Cruzava ruas e avenidas
Todo mundo trabalhava, cuidava de sua vida
Eu gostava de aventuras, no mercado me escondia
Vivíamos tempos doce, de paz à noite, vida ao dia
Até que a guerra a nós chegou
Pouca gente entende ao certo como tudo começou
Bala e bomba toda hora
Ajoelhada, a mãe à vida implora
Sob o pó pela bomba levantado
Jaz o corpo de mais um pobre-coitado
Fardado, o menino não entende
Todo o ódio que à arma agora o prende
Acordamos todo dia sem saber pra onde ir
Papai um dia disse que a nós resta fugir
Mas quem somos nós nesse mundo sem fim?
A história aniquila a esperança e termina assim
Depois de muito tempo, nos unimos aos conterrâneos
Fugimos de barco e encontramos a morte no Mediterrâneo

VII

Ela chora baixinho ao lado do corpo da mãe
O pai foi pra guerra e ela sabe que ele não volta mais
O irmão soterrado não pede socorro
Sozinha no quarto espera o milagre que não virá
O zumbido no céu e a esperança
“Será essa a bomba que vai me matar?”
Nos sonhos inocentes tem um jardim pra brincar
Pela janela só restam ruínas, a vida parou
Não há mais futuro, o país acabou
Sai solitária com a boneca na mão
O tiro, perdido, acerta o coração
Ela, enfim, encontra a paz

VIII

As lápides sem nomes fazem fila
Nem todo mundo será encontrado
Nem mesmo inocentes terão funeral
A guerra não mata apenas vidas
Mas aniquila dignidades
Histórias interrompidas por pura maldade
A guerra há de acabar por falta de gente para matar

 

*Aleppo é a segunda maior cidade da Síria. Já considerada uma das cidades mais bonitas do mundo, foi completamente destruída na guerra.

maya-para-ler-escritorasSobre a Autora

Maya Falks começou a escrever muito cedo, aos 3 anos ditava histórias pra minha mãe. Aos 24 escreveu seu primeiro romance adulto, que veio a ser publicado 8 anos depois. Nessa mesma idade, ganhou seu primeiro prêmio. Atualmente tem 3 livros publicados, diversos projetos em andamento e 21 prêmios entre contos, crônicas e poesias. Maya Falks é graduada em publicidade e propaganda, especialista em marketing e graduanda de jornalismo. Atua profissionalmente com redação publicitária e roteiro. O poema “Aleppo” integra o conjunto de textos do livro Poemas Para Ler No Front.

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