Para Ler Escritoras

#29 • seis poemas de Nil Kremer

1.
vejo auroras boreais no teu peito
e uma gigante baleia branca
protegendo a espécie
vejo o que tear algum tece
o embaraço que abocanha obviedades
liturgia que a bíblia não comporta
feridas sedentas nos teus lábios febris
ouço vinis no toca disco do teu peito
secos e molhados, amor
e uma paisagem dúbia, sonora
roçando a graça dos teus mamilos
2.
antes que evapore a última gota de bem aventurança
e cavalos crinas ao vento cessem o cavalgar
e o chiado da chaleira cale o vapor
antes que o amor
tralha de embrulhar carinhos seja daninha erva
e a escrivaninha transborde rascunhos planos
traçados a trôpego desespero
e os recomeços prossigam contos de fada
e o monocórdio dia satisfaça as panças alinhavadas
vou dobrar o resto de picardia e enfiar na bolsa
rever os resíduos de boa moça
e quando o espelho responder:
– foi você, a patética anulação foi você
num rodopio vou me esgueirar pela saída
há vertigem ainda
há vertigem
3.
entregar-se a uma deusa, menino
é dose
só fortes cederão
dormirão com pés descobertos e pernas enroscadas
narinas mergulhadas em jasmim
tem que ser fêmea em sua macheza
pra adentrar no labirinto
de pele em pétalas
península ancestral
aventurar- se em braços temperados
ler recatos de corpo e timbre de voz
harmonizar o compasso
em suspiros comungados
louvado agridoce
porque deusas não são linha reta
esteta algum avalia
maestria tamanha
deusas lavam-se em sangue, bebem de bocas
lobas e loucas defendem suas crias
4.
a linha se rompe
num ponto qualquer
e deixa de existir nó
laços deixam de existir
e a linha já é fiapo
outra coisa qualquer
diferente do que foi
mantém a cor
a textura se mantém
mas a resistência da linha
não há, não tem
dos ritos todos
o rompimento da linha
é um tornado
5.
o mundo acaba no quadril
no íngreme trajeto até os ouvidos
nos olhos acaba o mundo
guardião do indizível
sob as expressivas sobrancelhas
na glote contraída acaba o mundo
pigmeu que regurgita atrocidade
na sobriedade em demasia
na vaidade prostrada
na cama desarrumada o mundo acaba
na piada mal contada
nas vértebras ignoradas
no redemoinho dos teus cabelos o mundo acaba
na conivência de amores tracejados
rascunhos e estragos da boca de lobo
no volúvel
no contraditório
o mundo, este invólucro reutilizado
acaba no pecado mal consumado
na rasura sobressalente
no semáforo inerte
na conversão pós delito
na negligência da faixa amarela
na quirela dada aos porcos
o mundo acaba
pra renascer na massa de modelar
e desaguar no rosto
feito pinta próximo aos lábios
6.
não entendo do amor
entendo de culinária vegetariana
de frieiras, tormento no inverno
da ternura no sorriso da Clara
da farra sincera embebida em vinho
da beleza do cinema francês
do português, língua, também pouco entendo
o amor me cheira a farrapos
me deixa sem teto
sem credo
à deriva

Sobre a Autora

Nil Kremer é atriz e arte educadora, com formação em Letras pela UCS. Participou de coletâneas de poemas (publicações impressas e digitais), tem poemas publicados no livro da Tribo, em fanzines e revistas (digitais e impressas). Publicou o livro independente e artesanal “Kamikaze” (Da Gaveta, 2016).

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