Para Ler Escritoras

#31 • Palavraria, um conto de Mariana Cardoso

C

om o perdão dos hermanos: até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu encontrei coisíssima nenhuma (e ninguém dirá que é tarde demais para mais uma crônica de padaria). Mas dia desses, vagando meio zonza entre rocamboles, quindins e pudins, me deparei com a nobreza do doce mais plebeu da vitrine. E a vitrine era um palácio guardado por uma sentinela de touca nos cabelos, à espera, acompanhando meus olhos curiosos com seus olhos risonhos, como se os açúcares dali lhe roçassem os cílios.

– Licença, moça, como é que se faz brevidade?
– Ih, eu sei que mistura manteiga e ovos, não lembro o resto, não, mas é coisa bem simples.
– Ah. Eu vou levar pelo nome.
– Hã?
– Achei o nome bonito, sabe? Aí fiquei imaginando cê responder que brevidade se faz é com pouco tempo. – Ela gargalhou com a delicadeza própria de quem cuida de doces, e como quem também delicadamente dissesse “que bobagem das grandes, gostei”. No começo da tarde as padarias são desabitadas; é dia útil, e as belas adormecidas das noitadas de sextas e sábados ainda não apareceram com suas olheiras, ressacas e fomes. Talvez por isso atendente e cliente tenham concordado em parar as máquinas de suas vidas um minutinho só, ó, patrão, e esticar as pernas. Ali rindo, paradas, éramos perigosa e alegremente improdutivas.
– Não, sério! Esmalte, por exemplo, eu escolho pelo nome.
– Isso eu também faço. Tem aquela linha da Risqué, dos sete vermelhos capitais, só uso ela, cada dia tô com um pecado diferente na mão. Esse aqui é o Santa Gula. – Ela me exibiu com orgulho as unhas sob as luvas, enquanto eu elogiava e pensava, encantada, que aquilo era mais barroco do que todos os anjos gorduchos do Aleijadinho na fachada da igreja de São Francisco de Assis.
– E sonho? Tem sonho?
– Não, moça, o sonho acabou.
– É o que dizem nos jornais.
– Engraçado você falando assim, porque parece que o nome deixa a comida mais gostosa mesmo.
– Uai, a gente come com a boca, com os olhos, com o ouvido também. Me diz o que parece mais gostoso: tilápia ou namorado?
– Hum, namorado.
– Açúcar mascavo ou açúcar cristal?
– Cristal.
– Baba de moça ou suspiro?
– Suspiro.
– Olho de sogra ou pé de moleque?
– Credo em cruz, nenhum.
– Agora pensa num jardim, cê plantaria boca de leão ou comigo-ninguém-pode?
– Comigo-ninguém-pode.
– É melhor tocar surdo ou pandeiro?
– Pandeiro, melhor ainda se for um bem redondinho. – Alguém que entrasse naquele momento no corredor dos doces não entenderia por que ríamos nosso riso de enxugar o rio dos olhos. – Que nem meu pai.
– Seu pai?
– Meu pai antes de morrer ouvia muito choro, né? Eu ficava “pai, diabo de música triste, ainda tem que ter um nome desses?”. Agora eu choro quando toca choro no bar aqui da rua.
– Ai, desculpa. Mas ainda tocam choro ali, perto do Xico da Carne?
– Toda quarta-feira.
– Ô, flor, vou levar brevidade mesmo, é pruma tia minha que tá no hospital. Levinho, né, manteiga e ovos? – Era um papo meio MasterChef, meio dicionário, pulando de verbete em verbete, mas a intimidade daquele substantivo que virou verbo me deixou desconcertada demais pra continuar. Ela piscou com os cílios açucarados e me entregou o quitute que media as horas.

Deixei a padaria mordida pelo bicho do empreendedorismo: abrirei uma palavraria. Vitrines cheias de artigos, numerais, pronomes, adjetivos, conjunções, advérbios, cartas de boas vindas, bilhetes apaixonados, longas declarações de saudade, notas apressadas para pregar em espelhos e geladeiras, tudo pegar-e-levar, gratuito aos mortos de vontade, aos famintos que somos nós. E Jesus (me) respondeu, dizendo: “está escrito que nem só de pão viverá o homem”.

para-ler-escritorasSobre a Autora

Mariana Cardoso é escritora de gaveta virtual em Belo Horizonte. Além de projetos de romances pela metade, tem textos esparsos publicados na página pessoal, na Revista Gorfo, na Totem & Pagu e na coletânea “Bahia” da Darda Editora; em breve sairão outros na “Coletânea de Escritoras” da Editora Calamares. Estuda História na UFMG, onde foi professora de redação no cursinho popular Humanizar Fafich, e tudo o que quer é voltar ao teatro.

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