Para Ler Escritoras

#4 • Jamais o Fogo Nunca, de Diamela Eltit

E

u tinha me transformado numa não, não, nunca oficializada subalterna sua. Complementava suas análises, porque afinal eu tinha meu próprio arsenal, minha passagem indiscutível e memorável por cada uma das escolas de quadros, meu prestígio como analista, toda uma experiência prolongada e aguda no ramo da linguística e minha preparação científica no estudo de história. Eu lhe disse, eu lhe disse, não foi? Ah, você me responde e não sei porque me deixa satisfeita essa sua exclamação. Estou sentada na mesa, divagando, antes de me entregar a saldar o estado dos números, nossas contas, as colunas impecáveis dos gastos, todos, cada um deles. Você me dá as costas para demonstrar assim sua indiferença ou sua indolência diante da minha tarefa cotidiana. Os gastos. Lembro que saí à rua num ato completamente desatinado, rompendo qualquer lógica de segurança. Saí à rua, caminhei por calçadas expondo minha figura já abertamente deformada. E de repente experimentei o impacto diante daquele vestido que, ainda que eu tenha me negado a reconhecer, ocupou inteiramente meu desejo e se apoderou da minha mente em ondas desejantes e secretas. O vestido que deteve meus passos na rua e me confrontou à vitrine e, subitamente, eu quis, eu quis o vestido, amei o vestido, me apaixonei de imediato. Seu tecido, seu corte, seu desenho e a urgente, enlouquecida necessidade de comprar o vestido, de me vestir, exibi-lo em mim, comer o vestido, devorá-lo inteiramente, gastar no tecido, no desenho, no corte, me entregar sem pudor, alheia a qualquer átomo de culpa, a um prazer bacante e absoluto com a exterioridade, a superfície mais daninha a que eu podia entregar meu corpo. Renunciar à renúncia que fizemos nos primeiros anos em que nos refugiamos de uma vez e para sempre atrás de um desprezo consistente.

Lutei para tirar as calças desorbitadas, a blusa amorfa, o colete, queimá-los, aniquilá-los na potência devastadora de uma fogueira e acudir cega ou virginalmente em direção ao vestido para renascer ou ressurgir ou evitar um destino marcado pelo excesso total de corpo, pela ausência de contornos, um corpo que tinha experimentado a história nua ou real, uma história que em toda extensão de seu tempo incomensurável teve que se dedicar sempre a aniquilar. Assumimos isso, tomamos a direção inamovível de uma escassez realmente militante, austera, os dois, sua austeridade, minha austeridade.

A não ser naquele dia.

O que aconteceu naquele dia? O que aconteceu comigo ou conosco para que desencadeasse em mim a alienação de uma vitrine cosmética e reprovável? O que aconteceu em mim para que eu parasse e me entregasse a um desejo infame que rompeu a qualidade mais pétrea dos meus ossos? A imagem do vestido os debilitou, de certo modo, os desprezou: meus ossos aos meus ossos. Meu olhar ávido, um desejo que explodiu imprevisível, que rompeu limites, cada uma das estratégias que tive ou tivemos que construir e que possibilitou que os ossos rodassem feito cacos rumo à mais incrível alienação. Sim, eu mesma, especializada em linguística e absolutamente consciente da rejeição como procedimento imperativo e liberador, me vi diante de uma vitrine que me convocava em direção a um vestido tortuoso, desenhado para seduzir e fugir dos avatares de uma história, um vestido que ia me liberar da infâmia, que ia me distrair de um poder que finalmente tinha me perfurado até a medula dos ossos. Sim, um poder que tinha ofendido a única consistência do corpo, que, sabíamos, era primordialmente ósseo.

p. 112-114 de Jamais o fogo nunca, de Diamela Eltit. Tradução de Julián Fuks. Relicário Edições, 2017.

Sobre a Autora

Diamela Eltit nasceu em Santiago (Chile) em 1949 e, desde os anos de 1980, tem ocupado um lugar central na narrativa chilena e hispano-americana contemporâneas. A força e a complexidade de sua proposta literária, a solidez e a coerência de sua construção narrativa e a perfeição de sua prosa converteram seu  livros em paradigmas que forneceram à crítica muito material para discussão. Jamais o fogo nunca, em especial, foi considerado pelo jornal El País, em 2016, um dos 25 melhores romances em espanhol dos últimos 25 anos. Diamela Eltit foi uma das convidadas da Flip 2017.

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