Para Ler Escritoras

#7 • pequeno teatro sobre o desespero, de aline bei

Ato 1.

peguei no colo a menina enrolada no cobertor, ela não acordou. nosso trem partiria às seis, agora 4:30, na mochila pouca roupa e um livro

sobre a américa.
caminhamos até a estação, não era longe, o vento que fazia parecer distante.
a rua de terra. minha bota surrada.
passei a mão pelo rosto da menina tão
gelado. apertei o corpinho contra o peito. cantei pra ela
uma música do chile que
minha mãe costumava cantar pra mim, uma música que me acalmava toda vez que eu sentia medo do meu pai batendo nela. minha mãe cantava a música depois que meu pai batia. depois que meu pai já estava dormindo. hola chiquita, eres un mar. eres tan grande como todo el mar
um cão começou a nos seguir.

 

não tenho comida – avisei.

ele me olhou de volta como se dissesse

não estou aqui por você.

 

segui caminhando, esqueci uma parte da canção. esqueci, meu deus, como era?, mas isso não chegou a acordar a menina. quando entrássemos na estação tudo ficaria melhor. mais calmo. sentaremos naqueles bancos onde se sentam os viajantes, sentaremos igualmente

esperando o nosso trem e a vida vai melhorar a partir disso, tenho certeza. cinco da manhã, um frio cortante. sinto sede e o cachorro já não está, perdi o momento
em que ele se foi. quase sinto saudades, imagine. saudades daquela rabugice.
avisto a estação.

estamos chegando, sussurro pra menina. estamos quase lá

barulho dos pés
pela terra

meu som caminhando o único som e se for ouvir bem fundo

o silêncio tem qualquer coisa da nossa própria respiração. volto a cantar o hino do chile, minha mãezinha sempre comigo. agora já avisto a porta, estou vendo a porta, sussurro pra menina.

adentro o lugar,
completamente vazio a não ser pelas pessoas que trabalham ali.
compro meu bilhete, estou nervosa.
a menina precisa? não, a atende responde sem me olhar.
sento, nas cadeiras que tanto imaginei que sentaria, elas são desconfortáveis e alegres, elas
são a promessa de uma nova cidade pra nós cada vez mais perto enquanto o trem não chega. abro os botões da blusa.
tento amamentar a menina.
a boca dela
não se mexe.
tudo bem se você não quer mamar agora. você pode mamar quando quiser.
são quase seis.
Finalmente nosso trem aparece. penso por um instante que perdi o bilhete
mas o bilhete está em cima da minha coxa.
entrego pro maquinista. sem bagagem? só a mochila, senhor. entro. o vagão está morno e o mundo pela janela ou parte dele, a cidade que não volto
nunca mais. sento. o trem
está vazio como tudo. a menina pesa no meu braço e não acorda,
vou colocar ela no banco.
o trem
começa a se mover, aqueles barulhos típicos. estou sentada
do lado oposto da vista e
é como se eu fizesse duas viagens. pego meu livro
sobre a américa e
é como se eu fizesse três.
leio
algumas páginas
sobre a terra, sobre a quantidade de terra na américa latina e isso me dá um pouco de
Sono. isso me dá
um tipo de
Sono

inédito.

**
Ato 2.
Senhora?
Senhora?
(o maquinista coloca a mão no bebê.
grita
pedindo socorro.
cai o pano).

Sobre a Autora

Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte. Escreveu o romance O Peso do Pássaro Morto (Nós, 2017).

Livro

O Peso do Pássaro Morto (Nós, 2017)

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