Para Ler Escritoras

#9 • Mimimi, de Adelaide Ivánova

O

mimimi foi escrito em julho de 2017, ou seja, antes do assassinato de marielle franco. depois da execução da vereadora, em 14 de março de 2018, fica impossível lê-lo da mesma forma. esse texto portanto passa a ser dedicado a ela. marielle, presente!

***

Pág. 75

“O problema não é que as pessoas lembrem por meio de fotos, mas que só se lembrem das fotos. Lembrar, cada vez mais, não é recordar uma história, e sim ser capaz de evocar uma imagem”.

Na foto preto-e-branco, o corpo de ANGELA DINIZ está de bruços, descalço, de blusa e meia-calça, sem a parte de baixo da roupa, sangue na altura da cabeça. ANGELA DINIZ foi assassinada em 1976 pelo namorado, com três tiros no rosto e um na nuca. A foto está online.

Na foto colorida, o corpo de LIANA FRIEDENBACH está num matagal, deitado de costas, calça jeans e camiseta de banda de rock. LIANA FRIEDENBACH foi sequestrada, estuprada, torturada e assassinada com golpes de facão na cabeça e no pescoço, em 2003, por um grupo de 5 homens. A foto está online.

Pág. 80
“Todas as imagens que exibem a violação de um corpo atraente são, em certa medida, pornográficas. Imagens do repugnante também podem seduzir”.

Na foto preto e branco, o corpo de CLAUDIA LESSIN está dentro de um saco, nas pedras perto de uma praia. CLAUDIA LESSIN, assassinada por dois homens em 1977, foi encontrada nua com pedras amarradas ao pescoço. A foto está online.

Nas filmagens coloridas, o corpo em cárcere privado de ELOA CRISTINA PEREIRA PIMENTEL é espetacularizado pela mídia brasileira em tempo real. Baleada depois na cabeça e na virilha, ELOA CRISTINA PEREIRA PIMENTEL foi assassinada em 2009 pelo namorado, pela polícia incompetente, pela mídia brasileira e pelos espectadores. Foi tudo transmitido ao vivo.

Pág. 70

“Assim como a pessoa pode habituar-se ao horror na vida real, pode habituar-se ao horror de certas imagens”.

Na foto colorida, o corpo de DANIELA PEREZ está de cabelo solto, blusa preta e jeans, num terreno baldio. DANIELA PEREZ foi assassinada por um colega de trabalho dela e sua esposa, com 18 tesouradas, em 1992. A foto está online.

Na foto colorida, o corpo de SANDRA GOMIDE está de bruços, de calça marrom e camisa branca, atrás de um tonel de lixo. SANDRA GOMIDE foi assassinada em 2000 por um ex-diretor de redação do jornal Estadão. A foto está online.

Pág. 95

“Mostrar um inferno não significa dizer-nos algo sobre como retirar as pessoas do inferno. Alguém que se sinta surpreso ou decepcionado com a existência de fatos degradantes ainda não alcançou a idade adulta. Ninguém, após certa idade, tem direito a esse tipo de superficialidade, a esse grau de ignorância ou amnésia”.

Nas filmagens coloridas, o corpo de CLAUDIA FERREIRA DA SILVA é arrastado pelo asfalto por uma viatura da PM do Rio de Janeiro, depois de levar dois tiros, no pescoço e nas costas.  CLAUDIA FERREIRA DA SILVA foi assassinada pela PM carioca porque era pobre demais, negra demais. O video está online.

Nas filmagens coloridas, LUANA BARBOSA DOS REIS SANTOS denuncia o brutal espancamento que sofreu numa delegacia, para onde foi levada depois de se recusar a ser revistada por policiais homens. LUANA BARBOSA DOS REIS SANTOS morreu dias depois, assassinada pela PM de sao paulo porque era lésbica demais, negra demais. O video está online.

Nas filmagens coloridas, DANDARA DOS SANTOS é torturada e espancada por um grupo de homens, em 2017. Usava top amarelo, short jeans e estava descalça. DANDARA DOS SANTOS foi linchada por 12 homens porque era trans demais. O video está online.

para laura
em 1998 quando encontraram
o corpo gay de matthew shepard
sua cara tinha sangue por todo lado
menos duas listras
perpendiculares
que era por onde suas lágrimas
haviam escorrido
naquele dia o ciclista
que o encontrou não
ligou logo que o viu pra polícia
porque o corpo de matthew
estava tão deformado
que o ciclista achou ter visto
um espantalho

sábado passado em são paulo
um grupo de homens
e dois PMs mataram laura
não sem antes
torturá-la laura
foi vista ainda viva
por outro sujeito
que gravou
e postou no youtube o vídeo
de uma laura desorientada
e quem não estaria
com sangue jorrando da boca e da parte
de trás do vestido?

laura tem um corpo
e um nome que lhe pertencem
laura de vermont (presente!)
foi assassinada
por homens
pelo estado
e pela nossa indiferença
aos 18 anos
num sábado.

Na foto colorida, o corpo de DOROTHY STANG está de bruços, calça bege, camiseta branca e tênis preto, numa estrada de barro. DOROTHY STANG foi assassinada com seis tiros na cabeça e tórax, em 2005, a mando de um fazendeiro, porque era ativista dos direitos dos camponeses no interior do Pará. A foto está online.

Na foto colorida, o corpo de TEREZINHA NUNES MECIANO está de bruços no chão molhado, cabelo preso, jeans, blusa estampada e um machado ao lado. TEREZINHA NUNAS MECIANO foi assassinada a machadadas em Rondônia porque era ativista e líder da Liga dos Camponeses Pobres. A foto está online.

Pág. 76

“fotos aflitivas não perdem necessariamente seu poder de chocar. Mas não ajudam em grande coisa, se o propósito é compreender.”

Não há fotos dos corpos de LEIDIANE DROSDROSKI MACHADO, MARIA DAS DORES DOS SANTOS SALVADOR, ZILQUENIA MACHADO QUEIROZ, LEIDIANE SOUZA SOARES, SAMYLLA LETÍCIA SOUZA MUNIZ, EDILENE MATEUS PORTO e NILCE DE SOUZA MAGALHAES, as outras 7 ativistas camponesas e ambientalistas assassinadas no Brasil em 2015 e 2016.

Não há fotos do corpo sem vida de DORA LARA BARCELOS, que se jogou na frente de um trem em Berlim, em 1976. Anos antes, nas filmagens coloridas, DORA LARA BARCELOS conta as torturas que sofreu nos porões da ditadura militar brasileira. O video está online.

Pág 63

“o outro só é visto como alguém para ser visto, e não como alguém que também vê”.

O corpo de ANA MARIA NACINOVIC CORRÊA foi fotografado nu, dentro de um saco plástico, de olhos e boca abertos, com o número 3089-72. ANA MARIA NACINOVIC CORRÊA foi metralhada num restaurante por agentes do DOI-CODI, em 1972. A foto está online.

O corpo de IARA IAVELBERG foi fotografado só de calça, com um pedaço de papel ou pano cobrindo seu torso nu. IARA IAVELBERG foi executada em 1971 por agentes da DOI-CODI. A foto está online.

O corpo de MARIA LUCIA PETIT foi fotografado pelos militares deitado de costas sobre um tecido de pára-quedas, com as mãos sobre a barriga, de calça e camiseta, o cinto aberto, a cabeça dentro de um saco plástico cheio de sangue. MARIA LUCIA PETIT foi executada em 1972 na Guerrilha do Araguaia por um camponês aliado aos militares. A foto está online.
O corpo de MARIA REGINA LOBO LEITE FIGUEIREDO foi fotografado nu, com sangue saindo pelo nariz, boca e olhos abertos. MARIA REGINA LOBO LEITE FIGUEIREDO foi executada na sua casa em 1972 por agentes do DOI-CODI. A foto está online.

O corpo de PAULINE REICHSTUL foi fotografado de camiseta branca, com sangue saindo pelas duas narinas. PAULINE REICHSTUL foi torturada até a morte no massacre da chácara São Bento em 1973. A foto está online.

O corpo de SOLEDAD BARRETT foi fotografado de calça e camisa de botão, no chão, uma poça de sangue do seu lado direito. SOLEDAD BARRETT, que estava grávida do homem que a delatou, foi torturada até a morte no massacre da chácara São Bento em 1973. A foto está online.
O corpo de SONIA MARIA DE MORAES foi fotografado deitado, com um número de identificação, blusa estampada, os olhos fechados, marcas de tiro na têmpora e no maxilar. Antes de ser executada, no DOI-CODI do Rio em 1973, Sonia foi torturada e estuprada com um cassetete. A foto está online.

O corpo de AURORA MARIA NASCIMENTO FURTADO foi fotografado deitado de lado, sem sapatos, com vestido curto claro, coberto de sangue, numa calçada. Aurora foi torturada até a morte no mesmo dia em que foi presa por agentes do DOI-CODI  do Rio, em 1972. A foto está online.

  1. Ana Rosa Kucinski Silva
  2. Ieda Santos Delgado
  3. Ísis Dias de Oliveira
  4. Jane Vanini

todas da Ação Libertadora Nacional – ALN

  1. Heleny Telles Ferreira Guariba

da Vanguarda Popular Revolucionária – VPR

6. Maria Augusta Thomaz

do Movimento de Libertação Popular MOLIPO

7. Maria Regina Marcondes Pinto

do Movimento Izquierda Revolucionario MIR

8. Áurea Eliza Pereira Valadão
9. Dinaelza Soares Santana Coqueiro
10. Dinalva Oliveira Teixeira
11. Helenira Rezende de Souza Nazareth
12. Jana Moroni Barroso
13. Lúcia Maria de Souza
14. Luíza Augusta Garlippe
15. Maria Célia Corrêa
16. Suely Yumiko Kanayama
17. Telma Regina Cordeiro Corrêa
18. Walkíria Afonso Costa

todas do PCdoB

Não há fotos dos corpos dessas que são as 18 desaparecidas políticas no Brasil – e porque não há fotos, duvida-se dos fatos.

Não há fotos de cada uma das 13 mulheres assassinadas por dia, no Brasil, fazendo do país o quinto do mundo em número de feminicídios – e como não há fotos, duvida-se os fatos.

Não há fotos dos 3 anos que a presidenta eleita Dilma Rousseff ficou presa e foi brutalmente torturada – e porque não há fotos, duvida-se dos fatos.

Não há fotos do corpo desaparecido de ELIZA SAMUDIO – e como não há fotos, duvida-se dos fatos.

O que há é uma foto da presidenta eleita Dilma Rousseff impressa em formato de adesivo, para colar na boca do tanque dos carros, em foto-montagem em que ela aparece levantando a saia, com as pernas abertas, para que seja simbolicamente violada por uma bomba de gasolina. Dá para comprar na internet, inclusive.

O que há é uma foto da presidenta eleita Dilma Rousseff sendo perfurada por uma espada, num truque de ilusão de ótica, numa imagem que ganhou prêmio e tudo.

O que é há é uma foto da presidenta eleita Dilma Rousseff assistindo a um jogo da copa, ou seja, se divertindo, numa imagem que foi usada depois na capa da revista Isto É com a manchete “As explosões nervosas da presidente”.

O que há são fotos da presidenta eleita Dilma Rousseff respondendo a 14 horas de interrogatório num processo fajuto de impeachment, cujo nome verdadeiro é golpe.

O que há são inúmeros memes em que a presidenta eleita Dilma Rousseff é ameaçada de estupro e assassinato, é aconselhada a transar mais, e é xingada de “quenga”, “sapatão”, “mentirosa”, “cão chupando manga”, “filha dilma puta”, “dragão” e sobretudo de “bruxa”.

sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015

de que adianta esse pôster de madonna na
parede da cozinha indicando de qual lado
estou se na papua nova guiné continuam
linchando mulheres a quem chamam de bruxa
a papua pode até ser guiné mas nisso não
tem nada de nova e se for para queimar uma
mulher por bruxaria que queimem logo todas

de que adianta beyoncé avisando que vai sentar
o rabo na cara do boy e de que adianta eu me
inspirar nisso para fazer igual ou parecido se na
papua nova guiné sentam senhoras em telhas de
brasilit e com elas amordaçadas abrem nacos de
carne e sangue que na foto escorria pelas rugas da
telha pelas rugas das costas da mulher essa mulher
de cabelo curto e preto de costas na foto parecia a
minha mãe eu perdi o controle não consegui mais
almoçar e sei que não vou conseguir dormir mas

de que adianta minha insônia e meu jejum e esse
poema se na papua nova guiné não iriam entendê-lo
e mesmo a compreensão dele não salvaria a vida da
mulher e mesmo no brasil onde se pode entendê-lo já
se sabe que poemas tal qual leis não mudam nada tudo
sobre isso já foi legislado e dito em todas as línguas
também em português mas meu deus

de que adiantaria meu silêncio?
de quem estaria meu silêncio a serviço?
FONTES:
. Susan Sontag, “Diante da dor dos outros”, tradução de Rubens Figueiredo (São Paulo: Companhia das Letras, 2003)

https://images.google.com/
http://memoriasdaditadura.org.br/
http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/
https://nacoesunidas.org/
https://www.globalwitness.org/documents/18482/On_Dangerous_Ground.pdf

. o poema “para laura” faz parte da edição brasileira de “O martelo” (Rio de Janeiro: Editorial Garupa, 2017)
. o poema “sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015” foi publicado no blog da autora, vodcabarata.blogspot.com, em 01 de novembro de 2015

A performance de Mimimi na FLIP foi gravada e você pode assistir aqui.

Sobre a Autora

Adelaide Ivánova (1982, Recife) é uma jornalista e ativista brasileira, que trabalha como poeta, fotógrafa, tradutora e editora. Estudou Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e Fotografia na Ostkreuzschule, em Berlim. Publicou três livros – “autotomy (…)” (Pingado-Prés, 2014), “Polaróides” (Cesárea Editora, 2014) e “O martelo” (Douda Correria, 2016; Edições Garupa, 2017). Fundou o grupo de estudos e ações anarcofeministas B.R.U.X.A (Brigada Revolucionária União das Xoxotas Armadas) e a editora BolaGato Edições Anarcobucetalistas, onde publica o zine queerfeminista MAIS PORNÔ, POR FAVOR! e pôsteres com conteúdo de educação política comunista. Traduziu, entre outros, Ingeborg Bachmann, Hans Magnus Enzensberger e Paul Celan. Faz parte das coleções dos museus DKW Cottbus, na Alemanha, e do Museu de Belas Artes da Bretanha, na França. Em 2017 participou de festivais como FLIP (Paraty, Brasil) e Latinale (Berlim, Alemanha) e em 2018 do Festival Feminista de Lisboa e da Primavera Literária Brasileira (Antuérpia e Bruxelas, Bélgica). Vive e trabalha entre Berlim e Colônia.

Leia mais de Adelaide Ivánova

O Martelo (Editora Garupa, 2017)

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